"Yes, I can see now."

A genialidade de muitas pessoas pode se manifestar em momentos que, à primeira vista, não parecem os mais propícios, e isso acontece demais no cinema. Com cada vez mais efeitos especiais, orçamentos astronômicos, recursos e tecnologia avançada, tem horas que o regular man tem lá suas dificuldades em diferenciar um cara realmente bom de um cara com recursos.

Isso pode soar nostálgico, mais ou menos como nossos pais, ao dizerem que "bom mesmo era no meu tempo", ou quando a imprensa esportiva fala do tal tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Mas quando a gente vê alguns clássicos, dá pra ver quem sempre soube mandar bem.

Depois de anos sendo fã dos Trapalhões e do ótimo Chaves, esse ano assumi a missão de resolver uma das minhas falhas de caráter mais sérias e assistir a alguns filmes do Charles Chaplin - e não poderia ter sido missão mais grata! Como pude ficar tantos anos sem saber que a fonte de onde Renato Aragão e Roberto Bolaños tanto beberam estava logo ali, em preto e branco, muda? Primeiro, Tempos Modernos (1936), filme que o Mauro deveria ter passado pra gente no colégio, e esse fim de semana tive o prazer inenarrável de ver Luzes da Cidade (1931), equilíbrio perfeito entre comédia e sentimentalismo, na companhia certeira de um primo e ótimo amigo.

Chaplin era um gênio, e praticamente sem dizer uma palavra sequer. Como conseguia aquele homem, com um humor tão inocente, uma personagem tão destituída de maldade, com caras e bocas, e um cumprimento de chapéu tão adorável, fazer tanta miséria, a ponto de ainda ser visto e louvado, por praticamente 80 anos? Acho que a resposta é clara: apesar de uma vida pessoal bastante conturbada, ele fazia valer a simplicidade, além da teimosia de um homem que sabia do valor das imagens e gestos.

Falar sobre a última cena do filme, em que um sorriso de segundos de duração consegue dizer tudo que o Vagabundo sente, é chover no molhado. É só jogar no Google e ler posts e reportagens e opiniões, mas nada consegue substituir o impacto que um olhar, uma flor e um sorriso causam - se não causam, boa pessoa não pode ser. É justamente como aqueles presentinhos bobos, do nada, que damos a amigos, ou uma carta, um bilhetinho, uma referência em redes sociais, que são mínimos, mas são verdadeiras luzes em dias às vezes não tão claros.


Não temo em dizer que é uma genialidade emocional de quem não perde o hábito de promover pequenas, mas contundentes, alegrias nos nossos dias, sem precisar se valer de grandes recursos - muitas vezes, nenhum. Tal qual a genialidade de Chaplin em seus filmes, que nunca vão perder o brilho, sem nenhum computador ou reviravolta confusa de enredo pra tanto.
1 Response
  1. Thelma Says:

    Muitas vezes o que cala fala mais que o que se fala.....