"Based on a True Story"

Não sei se é uma falsa impressão, mas cada vez mais se faz e se atrai espectadores ao cinema com os tais filmes baseados em fatos reais. No cinema, agorinha mesmo, dá pra ver Intocáveis (2011), Gonzaga: de pai pra filho (2012) e o ótimo Argo (2012), do nem sempre tão ótimo Ben Affleck, que se achou atrás das câmeras como um diretor dos mais competentes. Isso só a título de exemplo, e pensando nos últimos 10 anos, give or take.

Sem entregar o final do filme, é uma história sobre o plano de extração de 6 funcionários diplomáticos do Irã após a revolução islâmica de 1979, já que esses seis conseguiram fugir da embaixada e se refugiaram na casa do embaixador do Canadá, eh? Não é preciso ser um gênio para saber que alguma coisa deve ter dado certo, de um jeito ou de outro, ou então o filme dificilmente seria produzido. Do mesmo jeito como ninguém quer ver gente feia e pobreza de verdade na TV, duvido que a plateia do cinema vai lá querendo ver planos arriscados e ousados para salvar pessoas dando errado e gente sendo executada. Seria mais ou menos como fazer algo como À Procura da Felicidade (2006), com o Chris não conseguindo o emprego no fim e o filho sendo levado para algum abrigo pelos social services.

Mas isso tudo parte de um pressuposto: saber que os filmes foram feitos com base em fatos reais. Sobre Argo, um questionamento muitíssimo pertinente: será que se fosse pura ficção, as pessoas estariam dispostas a "engolir" que aquilo tudo foi feito mesmo, daquela forma? Pontos mil para Ben Affleck e a produção, com o cuidado técnico e histórico, com as rezas nos momentos certos, mas e o cerne da coisa? Será que se Tony Mendez fosse simplesmente alguém da cabeça do roteirista, o filme faria tamanho sucesso, ou as críticas seriam no sentido de um filme "fantasioso demais"? Se alguém consegue imaginar, deve ser no mínimo porque seria passível de ser feito, right?
 
Outro filme nesse sentido, menos de história de superação, e mais de verdade nua e crua sobre vingança mesmo é o ótimo Munique (2005), que no Brasil parece ter passado um tanto despercebido, ainda que seja um dos melhores filmes de Steven Spielberg. Claro, numa pura ficção, e nas mãos de um Michael Bay da vida, teríamos um filme de perseguições espetaculares, e não de uma coisa mais pé no chão, onde as coisas dão errado, gente inocente morre, o mocinho questiona suas ordens e motivos, sem um discurso ou catchy phrase, e o final não é necessariamente um happy ending.

Por que é que, só então, tanta gente aceita que o cinema seja assim? Mar Adentro (2004) traz uma história pesadíssima, mas verdadeira, de Ramon Sampedro, pescador espanhol que, aos 25 anos de idade, tornou-se tetraplégico e passou a brigar na justiça pelo direito de morrer - e, para quem não sabe ainda, ele morreu em janeiro de 1998, por envenenamento, auxiliado por uma amiga. Trágico e belo, isso sim, mas real. Ah, mas e se fosse uma história fictícia? Ia ser tão difícil de aceitar, ou mesmo dar razão a Sampedro? Claro, qualquer um com um caso similar em família daria razão, mas... opa! Tem um caso em casa, a história passa a ser real. Se não, corre-se até o risco de se passar indiferente a uma história assim.

Mesma coisa pra filmes de terror: A Bruxa de Blair (1999) causou alvoroço, mas não apenas pela qualidade da história, mas sim porque poderia ter sido verdade. Real, não arte. Veio Atividade Paranormal (2007), e foi a mesma ladainha, sendo que muita gente se mostrava decepcionada quando descobria que a casa usada era a do diretor do filme, até. Prefeririam que fantasmas e possessões demoníacas numa casa fossem realidade?

Se a arte imita a vida, por que é que cada vez mais precisamos desse lastro de veracidade, que supostamente dá a credibilidade necessária ao filme? Por que a ficção tem que ser só filme de assalto, de robôs ou coisas assim, ou sobre histórias que sempre acabam bem, de uma forma ou de outra? Sobre planos que, de tão geniais, nem parecem reais, sem nem chegar aos absurdos (tão legais!) da série Missão: Impossível?

Ainda há pouco tempo escrevi sobre Sete Vidas, até sobre como é difícil imaginar alguém tão bom quanto o Ben do filme na vida real, sem ser movido por remorso ou culpa ou algo maior e egoísta até, mas me pergunto se isso mudaria caso o filme fosse "baseado em fatos reais".
3 Responses
  1. Ligia Says:

    Ta aí a pergunta de um milhão de dólares, não?!
    Acho que o "baseado em fatos reais" da a segurança que o homem precisa pra se apegar a algo e sair por aí dizendo que é o reflexo da realidade. Até porque, commo vc mesmo disse, tudo que vemos por aí baseado em fatos reais tem final feliz de uma forma ou de outra. Consolo para o mundo atual?
    Beeeeeeeeeeej


  2. Thelma Says:

    Penso que nos filmes baseados em fatos reais, somos compelidos a nos emocionarmos e a sermos, de certa forma, conivente com eles, já que os fatos que os desencadearam aconteceram DE VERDADE, e mereceram ser transformados em arte. Esse costume de tomar a fantasia como irreal, como mero escape da realidade ainda prepondera, e então as histórias fantásticas perdem em valor na mesma medida em que aquelas baseadas na realidade ganham público. Isso me incomoda. Seja no cinema ou na literatura - na qual cito o maravilhoso Julio Cortázar - acredito que a fantasia permite mais, muito mais; ela embeleza a vida. A realidade nua e crua pode ser inspiradora da arte, mas o contrário, a meu ver, é bem mais interessante!


  3. Ana Luísa Says:

    Não acho que o cinema baseado em fatos reais seja um artifício para dar credibilidade. Credibilidade talvez não seja a palavra. O que acontece, a meu ver, é que, ao sabermos que o filme é baseado em fatos reais, nos inclinamos a uma identificação ou a uma projeção, o que nos leva a uma mais provável sensibilização. Não se trata, pois, de credibilidade propriamente dita. E, "siacalme", porque há muitos filmes de ficção sem extraterrestres, bruxas, atividades paranormais, robôs ou desfechos felizes. :) Já que falávamos de Hugh Jackman, "Os suspeitos" não tem o que chamamos de "final feliz", mas é um filme que nos põe para pensar sobre diversos aspectos comportamentais e, em diversas medidas, nos guia à projeção e à sensibilização. Não tem o rótulo "baseado em fatos reais", mas é uma ficção dessas bem verdadeiras.

    Quanto ao aspecto da fantasia contido no comentário anterior, a fantasia também é uma realidade, porém imaginária. :) Parece paradoxal, mas é bem técnico, inclusive.

    E os caminhos das fruições interpretativas nos são tão, mas tão pessoais, que fantasia e realidade muitas vezes se fundem da maneira mais natural e humana possível. :)