"This is all a tightrope, you gotta learn to balance."

A profissão de advogado, lato sensu, é uma meio ingrata. Iniciativa privada ou poder público, tanto faz. Todos os dias nos deparamos com aquele momento em que você para, pensa e pondera. Mas, no fim das contas, e de modo geral, claro, sempre tem alguma coisa que vai pesar mais, nem que seja a esmagadora pressão sobre você pra mandar soltar um filho de deputado federal ou o risco do cliente levar sua carteira de casos para outro escritório porque o trabalho não foi feito como deveria - e não importa o quão impossível isso seja. Ou até mesmo errado.

E tem o júri, mas como nesse caso o cidadão é colocado lá sem nenhum lado voluntário, não vou nem entrar no mérito. Fora que tem gente que acha que deve ser legal, até estar lá e ficar horas a fio pra decidir se manda alguém pra cadeia ou não.

É preciso dizer, claro, que a profissão tem um lado absurdamente gratificante, seja por ver que a Justiça foi servida, numa condenação ou numa absolvição, ou também por conseguir ajudar pessoas com boas ideias colocando tudo em prática, fazendo até com que a engrenagem não pare. Sim, dá pra ser advogado e ser uma pessoa boa, é bem fácil.

Mas... quando você trabalha para o poder público, não tem o cliente. Mas tem um risco bastante peculiar: a indiferença. Pessoas tornam-se nomes em papel, e você não sabe se aquele sujeito contra quem você oferece uma denúncia, com a faca nos dentes e a cabeça no índice de condenações, é realmente tudo aquilo, ou como vai ficar a família do sujeito. Claro, quem faz merda tem que pagar por isso, não há dúvidas, mas às vezes... e não precisamos imaginar casos à John Grisham para isso, como Tempo de Matar, em que a simpatia pelo réu é mais do justificada, diante de um caso de estupro tão nojento, e o final não poderia ser outro.

E os "furos" no sistema, com que os advogados privados têm que aprender a trabalhar tão bem, e os advogados públicos, por assim dizer, têm que aprender a contornar, ou adaptar?

Nesse sentido, há filmes que mostram lados interessantes da mesma moeda, e que deveriam ser vistos por quem pensa em fazer Direito. Segue um "Top 5" bastante recente para isso, sem qualquer tipo de ordem motivada.

1. Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007) 
Filme do advogado "fixer", que precisa fazer malabarismos para contornar situações, defender interesses, manipular a verdade. É um show de George Clooney, e chega a extremos, mas até aí, os extremos sempre mostram porções ideais ou indesejáveis da realidade. Um filmaço, de verdade, mas muito complicado. Questões de consciência e de ética no talo.

2. Fora de Controle (Changing Lanes, 20022)
Ben Affleck é canastrão, mas aqui o papel cai como uma luva para ele. E Samuel L. Jackson consegue controlar seus motherfucker moments da vida pra mostrar um cara tão desesperado que é comedido. O filme um lado "humanístico", de mudança de vida, mas isso só porque o advogado, coitado, se dá conta da podridão do meio em que trabalha, e a chave para a mudança cai, literalmente, em sua mesa, diante de si.

3. O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer, 2011)
Ok, então todo mundo tem direito ao acesso à Justiça, a um julgamento justo e afins? E quando seu cliente é um estuprador confesso, e você sabe que há buracos no "devido processo legal" que darão aquela forcinha para ele continuar por aí, free as a bird? Advogados de traficantes e de certos políticos também poderiam fazer um filme assim, seria até mais interessante para nossa perspectiva tupiniquim.

4. Código de Conduta (Law Abiding Citizen, 2009)
A situação é tão cruel, tão perturbadora que não dá pra assistir ao filme sem torcer pelo "vilão" do filme, para que tudo vá pelos ares. O problema é que é um filme de ação, e o foco vai do processo legal em si para as cenas de ação e de bombas e de torturas que ele se perde um tanto, sobre o trabalho do promotor e da juíza que são obrigados a fazer acordos e liberar criminosos a ponto de embrulhar o estômago. Isso também acontece com "colarinho branco", e não é menos pior.

5. O Crime do Século (The Crime of the Century, 1996)
Um daqueles filmes pra quem acha que bandido bom é bandido morto verem, porque mostra bem como um promotor de justiça passa de uma conduta investigativa à preparação de uma armadilha para jogar a culpa em alguém, de qualquer maneira. A pressão pública e dos "poderes" é sempre grande, e pode levar a erros monumentais, ainda mais num país que aceita a pena de morte - mas também pode acontecer em casos como a notória Ação Penal nº 470, o Mensalão.
2 Responses
  1. Thelma Says:

    A questão do poder público e o modo como toma os indivíduos como números e papéis é impressionante! Quanto mais vc adentra a máquina burocrática, mais cuidado deve ter para, uma vez estabilizado em sua função, não tender para o mesmo caminho. Taí uma coisa que sobra em advogados e falta no serviço público: paixão e vontade. Sem debater aqui suas motivações, é fato que esse profissional se empenha muito mais em fazer valer a pessoa que se torna, em algum momento da vida, seu cliente.
    Adorei o texto! Escreva mais, Paulinho!!!


  2. Paulo Tiago Says:

    Thelma, isso é muito verdade. Advogados da iniciativa privada têm nos clientes pessoas, e isso é das coisas que mais fazem falta, ainda que o cara não seja exatamente um cidadão modelo. Você vê para quem trabalha, e daí qualquer questionamento se torna muito mais válido.

    Até poderia ter mencionado O Homem que Fazia Chover, também do Grisham, pra mostrar como um advogado pode ser do bem, e um lado bastante humanista da profissão.