"All beyond fat and flour..."

Alguns filmes são feitos para serem histórias de amor, e outros para contar uma história, com algum romance bobo no meio que acaba sendo o mote do filme, com a história servindo meramente de pano de fundo para o que o (geralmente) jovem casal vai fazer para que tudo dê certo. Casos desse último são Titanic (1997) e Pearl Harbor (2001), ambos bem fracos na história, especialmente o segundo, que é ruim de doer mesmo.

Mas tem filmes que deveriam focar na história do casal, e mostrar como a luta deles vai fazer com que tudo dê certo no final, de um jeito ou de outro, nem que seja com outras pessoas ou com o recomeçar de cada um, acordando para a vida; afinal de contas, não é só de happy endings que se faz a vida, e o cinema descobriu isso, especialmente com interessantes produções independentes.

Acho que esse Sentidos do Amor (2011) estaria mais para um filme de amor com um pano de fundo, em que o pano de fundo efetivamente acaba sendo mais interessante. Não se trata de uma catástrofe do tipo "Lá vem um meteoro", ou uma guerra nuclear, ou mesmo uma inversão climática completa. Tudo bem que a ideia não é tão original (José Saramago e seu Ensaio Sobre a Cegueira), mas um mundo sem sentidos é tudo de que precisamos para o pânico geral. E, é claro, isso vai trazer todo o tipo de complicações para o casal em questão, formado pelo "confortável" Ewan McGregor e Eva Green.

O interessante é ter colocado personagens que, por suas profissões, são diretamente afetados pela perda gradual dos sentidos, ao passo em que estão justamente nas frentes mais evidentes de combate a isso, cada um ao seu jeito: garantindo com que a vida continue do mesmo jeito, ou procurando uma cura, respectivamente. A boa e velha adaptabilidade do ser humano. Essa parte por si só já é curiosa, como parece absurda a ideia de continuar com tudo até um pouco em que se torna inviável (a cena do crítico de restaurante sem odor e paladar é particularmente interessante), até que a perda da audição torna tudo inviável e o pânico toma conta.

Mas vale a pena ver como a perda de cada sentido mexe com nossas emoções (ou instintos) mais puros, como o desespero, a fome, a raiva e, finalmente, a compaixão, ou alegria eufórica, todas sem a menor razão de ser, simplesmente... sendo. O ser humano despido de racionalidade, até que uma perda nos coloca de volta "nos eixos".

Particularmente, uma coisa chama a atenção, por mais breve que seja: a associação que é feita entre os odores e as memórias, mas que poderia ser feita com qualquer dos sentidos. A ideia de que vamos nos esquecer de pessoas e momentos, por não podermos mais sentir aquele cheiro específico, como Susan narra do cheiro de canela e o avental da avó, até que essas imagens simplesmente desapareçam. Não seria a mesma coisa com o gosto, como aquele gosto da massa do bolo que imediatamente nos remete à infância, ou o gosto daquele nhoque que sua avó fazia e ninguém consegue acertar? E sempre é tão forte a ponto de pararmos pra sentir, curtir a memória.

Nesse ponto, fica claro como dependemos da nossa visão (talvez Saramago tenha ido direto ao ponto em seu livro), de como VER tudo, ao mesmo tempo que foi uma grande evolução para nós, nos tornou dependentes dos olhos. Acho que é mais ou menos a relação que temos com a tecnologia, na verdade, até porque nossa capacidade de pura abstração não é exatamente unânime e uma competência geral. Confesso que eu mesmo morro de medo de ficar cego, tanto quanto de ficar velho. Tanta beleza por aí, e seríamos impedidos de observar? De ver quem a gente gosta sorrir? De ler?

(ok, tem braile, eu sei, mas ia demorar tanto pra pegar o jeito que só ia dar conta de ler livros infantis por um tempo)

Voltando ao filme, talvez seja por isso que a visão é a penúltima, e não fica claro que o próximo sentido a ser perdido é o tato, mas também quando isso acontecesse nem o filme nem a vida teriam muito mais razão de ser. A última cena, com a última narração, remetem a um amor puro, destituído de tudo aquilo que o complica e o atrapalha; não é a toa que duas pessoas com tantas dificuldades para darem certo em relacionamentos "precisam" perder tanta coisa para se acharem em meio ao caos que se instaura (vide a pura alegria de descobrirem juntos como espuma de barbear pode ser boa de comer). 

Mas fica também a sensação de que, às vezes, para que as coisas possam dar certo, é preciso que uma desgraça dessa magnitude aconteça. E daí, de que adianta?

"Yes, I can see now."

A genialidade de muitas pessoas pode se manifestar em momentos que, à primeira vista, não parecem os mais propícios, e isso acontece demais no cinema. Com cada vez mais efeitos especiais, orçamentos astronômicos, recursos e tecnologia avançada, tem horas que o regular man tem lá suas dificuldades em diferenciar um cara realmente bom de um cara com recursos.

Isso pode soar nostálgico, mais ou menos como nossos pais, ao dizerem que "bom mesmo era no meu tempo", ou quando a imprensa esportiva fala do tal tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Mas quando a gente vê alguns clássicos, dá pra ver quem sempre soube mandar bem.

Depois de anos sendo fã dos Trapalhões e do ótimo Chaves, esse ano assumi a missão de resolver uma das minhas falhas de caráter mais sérias e assistir a alguns filmes do Charles Chaplin - e não poderia ter sido missão mais grata! Como pude ficar tantos anos sem saber que a fonte de onde Renato Aragão e Roberto Bolaños tanto beberam estava logo ali, em preto e branco, muda? Primeiro, Tempos Modernos (1936), filme que o Mauro deveria ter passado pra gente no colégio, e esse fim de semana tive o prazer inenarrável de ver Luzes da Cidade (1931), equilíbrio perfeito entre comédia e sentimentalismo, na companhia certeira de um primo e ótimo amigo.

Chaplin era um gênio, e praticamente sem dizer uma palavra sequer. Como conseguia aquele homem, com um humor tão inocente, uma personagem tão destituída de maldade, com caras e bocas, e um cumprimento de chapéu tão adorável, fazer tanta miséria, a ponto de ainda ser visto e louvado, por praticamente 80 anos? Acho que a resposta é clara: apesar de uma vida pessoal bastante conturbada, ele fazia valer a simplicidade, além da teimosia de um homem que sabia do valor das imagens e gestos.

Falar sobre a última cena do filme, em que um sorriso de segundos de duração consegue dizer tudo que o Vagabundo sente, é chover no molhado. É só jogar no Google e ler posts e reportagens e opiniões, mas nada consegue substituir o impacto que um olhar, uma flor e um sorriso causam - se não causam, boa pessoa não pode ser. É justamente como aqueles presentinhos bobos, do nada, que damos a amigos, ou uma carta, um bilhetinho, uma referência em redes sociais, que são mínimos, mas são verdadeiras luzes em dias às vezes não tão claros.


Não temo em dizer que é uma genialidade emocional de quem não perde o hábito de promover pequenas, mas contundentes, alegrias nos nossos dias, sem precisar se valer de grandes recursos - muitas vezes, nenhum. Tal qual a genialidade de Chaplin em seus filmes, que nunca vão perder o brilho, sem nenhum computador ou reviravolta confusa de enredo pra tanto.

"Succotash my Balzac, dipshiitake!"

Mais do que nunca, eu prefiro acreditar que tudo não passa de um infeliz, profundamente infeliz caso de homônimos, de título a nomes de personagens.


"Welcome to the graveyard of ambition."

Pegue um bom livro, interessante, que consegue não cair em todos os lugares-comuns que são armadilhas do gênero. Pegue dois bons atores, jovens. Pegue uma boa diretora, que acertou bem a mão em Educação (2009).

Então, pegue uma trilha sonora feita para chorar, ou emocionar. Adicione falta de budget para locações. Tire os pensamentos interessantes, mude algumas coisas e partes para adaptar mais ao average viewer, aquele que gosta de coisa digerível e mamão-com-açúcar.

Pronto! Estragar um bom livro como Um Dia, que poderia dar um ótimo filme, fica fácil!

"I am the sheep that got lost, Madre."

Minha mãe gosta bastante dos filmes do Denzel Washington, e por um tempo, eu também gostei. Até que... comecei a ver sempre aquele "negão malandro" (sem preconceito, mas é estereotipado), justamente no filme que lhe rendeu um Oscar de melhor ator, Dia de Treinamento (2001). Até hoje não consigo entender o que aquele filme tem de tão bom, por sinal; vai ver, é só mais um dos que eu preciso ver de novo.

De qualquer maneira, do mesmo jeito que ele é sempre o tal "malandrão", Anthony Hopkins é o "velho sábio", como em Um Crime de Mestre (2007), bem overrated, na minha opinião. Acho que o mais irritante é a carinha de "Eu sei de algo que você não sabe" o tempo todo, irrita demais! E eu sei que ele é um baita ator, assim com Denzel Washington - Hurricane - O Furacão (1999) e O Gângster (2007) não me deixam mentir, por exemplo. No começo dos anos 90 ele fez outros bons filmes, mas é só procurar que dá pra achar e eu paro de babar no ovo dele, mesmo porque não é o caso.

O caso é que Chamas da Vingança (2004) foi um filme que inicialmente gerou em mim uma certa... preguiça. Lá ia o macho malandrão passar por um perrengue, ter uma crise de consciência, e matar todo mundo, vivendo seu dia de anti-herói. Mas todo mundo falava que é tão bom, o IMDb dá um respeitável 7.7... e eu finalmente vi o nome de Tony Scott lá.

Dizem que a gente sempre acaba se identificando com a "voz" de um diretor, mas eu acho que é mais do que isso; tem um pra cada momento. Não nego que sou fã de Clint Eastwood, ou de Quentin Tarantino, ou mesmo de Sam Mendes. Mas quando o negócio é thriller, ninguém me atrai mais do que Tony Scott, que descobri com o despretensioso e ignorado Jogo de Espiões (2001), que só pelo elenco deveria chamar mais atenção - Brad Pitt e Robert Redford. Ele tem a mão, o estilo pra fazer a coisa dar certo, sendo que tanto filme com idéia boa por aí faz a merda de escorregar no "demais" e nos clichês, que podem servir pra algum bem. As tomadas, a fotografia, a edição dos filmes dele, a carga sentimental não mais do que necessária... é tudo muito bem feito, e num ritmo que faz com que 146 minutos, por exemplo, passem como uma hora e meia.

E daí Denzel Washington faz a diferença, porque ele é bom. Ele consegue ser durão, e dar um sorriso que conta, porque não é o que se espera. E quando precisa, fecha a cara de novo, sem ficar com ares de "eu sou o mochinho do filme". Se é pra ser "çangue bão", ele sabe ser; mas também sabe ser bem sangue ruim, como John Creasy tem de ser - um sujeito perdido, em busca de algo para voltar a ter esperança, já que a Bíblia por si só não tem dado conta. As duas cenas de tortura (de ambos os policiais) são tão contrastantes com o estudo de história com Pita que não dá pra entender como alguém seria tão frio a ponto de fazer a mesma cara ao brincar com uma criança e ao fazer uma piadinha com "I wish you had more time", antes de deixar o sujeito para trás para explodir, sem nunca dar a esperança do tipo "Você vai se salvar. Tudo vai dar certo, amigão". É um filme, acima de tudo, intenso.

Além dele, tem uma ótima e carismática Dakota Fanning, novinha, que em muito faz lembrar a relação de Mathilda e León no sensacional O Profissional (1994) - por sinal, curioso tanta gente dizer "I'm a professional" para Creasy. Lá, Natalie Portman em seu primeiro filme, e Jean Reno; aqui, Dakota e Denzel. E todos fazem "casais" tão inusitados quanto comoventes e eficientes. Tudo bem que é difícil uma menininha em perigo não mexer com qualquer adulto, mas nesses casos, é até curioso, dado o contexto, ainda mais no caso de Mathilda.


São dois filmes que basicamente poderiam ser clichês puros, e filmes facilmente esquecíveis (bom, eles o são, se for minha mãe assistindo), mas a combinação dos atores com os diretores (Luc Besson para o filme de 1994) é que faz o peso. Acho que é mais ou menos assim em qualquer trabalho: quando o chefe e o empregado se dão bem, a coisa flui e "tudo dá certo" no fim das contas. Cada um tem a liberdade para trabalhar com o que tem de melhor pra oferecer, e o chefe que manja deixa o sujeito explorar isso (como Gary Oldman, especialmente ele, faz em 1994), só aparando as arestas. E espertos são os estúdios e os produtores que conseguem colocar tanta gente boa junto.

"I can't believe this is happening again!"

Alguns anos atrás, quando teve um show do Motörhead em São Paulo, li numa Showbizz, acho, que assistir ao show deles era mais ou menos como assistir a novelas no Vale a Pena Ver de Novo: você sabe exatamente o que esperar, sem surpresas. A mesma coisa eu li uma vez sobre o Black Ice, último disco do AC/DC: o som deles continuava a mesma coisa, sem experimentações ou inovações - e por isso continuava tão bom (quem gosta de Radiohead, por exemplo, sabe exatamente do que eu estou falando).

Se Beber, Não Case foi um smash hit de 2009. Filme relativamente barato - especialmente se comparado à renda, elenco competente sem grande nomes, um humor longe de ser apelativo como American Pie. Um típico caso de clássico instantâneo dos 2000's - ou, como diria Alan, "a 2000's classic". E mesmo a recepção da crítica foi positiva, como prova o 7.9 do IMDb e tantas coisas que li na época. Fui ao cinema e ria feito um retardado, fosse de um japinha pulando pelado de um carro, fosse de uma portada num bebê, fosse de fotos completamente sem noção, que fazem as minhas parecerem do batizado do menino Jesus. O filme é tão divertido que Mike Tyson pediu para participar de uma possível seqüência. 

Daí, você vai ver a segunda parte, Se Beber, Não Case 2. Mesmo título. Mesmo elenco. Mesmo diretor (Todd Phillips, . Mesma premissa. Mesma abertura, com um telefonema quase fatídico do Phil. Dessa vez vai ser diferente? As coisas vão mudar? Alguém não vai sumir? Doug (o branco, não o "black Doug") vai participar? As repostas, só pelo trailer, já estão na mesa: não, nada vai mudar. O filme é um grande "mais do mesmo", só que dessa vez em Bangcoc - a própria cidade, mais uma vez, é grande parte do filme, como Las Vegas foi no primeiro filme. Ninguém tem dúvidas de que vai ter casamento, até porque fica meio claro que é uma repetição da fórmula que deu certo - com vários ingredientes a mais, e que deixam o filme tão bom quanto o primeiro, se não até melhor. Troque até mesmo um tigre por um macaco, um dente por uma tatuagem, mantenha os óculos de sol, e peça para Bryan Callen deixar de ser o Eddie da capela para ser o Samir do strip club - sem avisar a audiência - e pé na tábua. 

E é justamente aí que está o mérito do filme: pra que inventar? É uma seqüência com os mesmos atores, os mesmos personagens, uma situação muito parecida, mas com novas piadas, novos absurdos - e novas fotos no final do filme, ainda melhores que as do primeiro!  Até Mike Tyson está de volta. Não tem invenção, não tem exagero, não tem coisas mirabolantes pra fazer tudo ser maior e melhor, naquela coisa americaníssima de estragar coisas que dão certo como são ao aplicar anabolizantes para bigger is better. Não é o que a gente quer, muitas vezes? Ninguém liga pra um velho amigo procurando alguém novo pra conhecer, ou pega um disco da banca favorita pra ouvir um som novo, cheio de experiências - é o comfort feeling que conta.

É praticamente um Vale a Pena Ver de Novo, mas que realmente vale a pena - especialmente se você tem fresco na memória o primeiro filme, que tem ótimas e sutis ligações para garantir que seja uma seqüência de verdade, e não só mais um na franquia.  

"You were my hero, Dicky."

Falar em filme com boxe é falar em qualquer um dos Rocky, a saga do lutador sofrido que sempre dá a volta por cima criado pelo Stallone - e que valeu um Oscar pro Sly, por incrível que pareça. E qualquer pessoa (ou cara, pelo menos) com mais de 25 anos deve ter ficado todo empolgado se foi ao cinema em 2007 ver Rocky Balboa e depois de tanta enrolação toca o tema dele na hora da luta final contra Mason "The Line" Dixon, uma espécie de Apollo Creed dos manos moderninhos. E foi difícil não conter a emoção, acompanhar a luta, desviar dos socos e vibrar com cada porrada dada, tanto pelo Rocky quanto nele.

Mas o fato é que Rocky Balboa é um personagem de ficção, ainda que bastante verossímil e carismático (menos na porcaria de Rocky V. Puta filme chato!). Há outros boxeadores em outros filmes, eu acho, mas esse ano Mark Wahlberg interpretou o real Micky Ward em O Lutador e Christian Bale deu show como o irmão problemático Dicky Eklund. De novo, história de boxeador com família, o cara sofrido, que vai se dar bem no final, e a platéia vai vibrar com ele. Até aí, ok.

Agora, o incrível é Christian Bale. Ele manda tão bem, mas tão bem que é impossível não simpatizar com ele e torcer por ele até mais do que pelo Rocky contra o Ivan Drago em Rocky IV. Só que ele não luta, a não ser contra policiais que descem o sarrafo nele. Quem luta, agora, é o irmão, Mick, enquanto Dicky, aos trancos e barrancos, do jeito dele, tenta ajudar, por mais que traga problemas ao irmão. Vivendo no saudosismo de uma única luta, de um futuro de "poderia ter sido", sem perceber a realidade (o programa da ESPN gravado durante o filme é a maior prova disso), da espiral downwards em que entrou, e sempre num claro caso de honest mistake, Bale rouba a cena, mais do justificando seu Oscar. Ver Micky se dar bem vai além de torcer por umas boas porradas e pelo lutador, mas você torce porque quem vai realmente ganhar é Dicky, mesmo que fora do ringue. Eu mesmo sempre achei boxe um esporte meio idiota (o que dizer, então, desses UFC da vida?), mas nunca fiquei tão emocionado e vibrante numa luta, pensando que cada soco bem dado por Micky é um soco na vida errada do irmão, que merece melhorar. Afinal de contas, o que dizer de um viciado em crack que consegue te fazer sentir simpatia?

O que é mais legal do filme, me ficou, é finalmente ver gente de verdade dando a volta por cima. Não é um Rocky Balboa, ou qualquer outro personagem que dá a volta por cima depois de uma separação, como alguma mocinha bonitinha. Agora é o cara feio, drogado, magrelo, malandro, que atrapalha - sem querer, e isso é o que ele tem de melhor, porque você sabe que ele não é um filho da puta, mas um cara que fez escolhas erradas na vida e paga por cada uma delas, sem querer passar as shares que o irmão recebe, sem querer. Quando a gente se acostuma a ver quem não presta se dar bem, é emocionante ver alguém que merece dar a volta por cima, e ainda de forma tão convincente quanto Christian Bale faz. A fala antes da luta final é o pico disso, que desarma a defesa ou desconfiança de qualquer um:

Dickie Eklund: Are you like me? Was just good enough to fight Sugar Ray? Never had to win, did I? You gotta do more in there. You gotta win a title. For you, for me, for Lowell. This is your time, all right? You take it. I had my time and I blew it. You don't have to. All right? You fuckin' get out there, and use all the shit that you've been through, all the shit we've gone through over the fuckin' years, and you put it in that ring right now. This is yours. This is fuckin' yours. 

Não são só os meninos que vibram e se emocionam com os socos que "Irish" Micky Ward acerta, ficando com a sensação de que o herói de verdade está de fora dessa luta.

"It could be worse than it looks."


Essa bíblia foi um e-mail escrito após uma tensa conversa sobre um livro/filme, famoso até, que usei para dar aula em 2008. Foi O Menino do Pijama Listrado, e a conversa foi sobre o final. É um post altamente spoiler, mas não consigo deixar de publicar, até porque ontem me falaram do filme. É, pra deixar registrado, uma das combinações mais interessantes entre livro e filme que já vi, porque um consegue complementar o outro naqueles detalhes que faltam, e fazem diferença.

Leia sabendo que eu conto o final do treco logo no primeiro parágrafo, e eu realmente passei aquela noite pensando nisso.

* * *

Ok, então eu fui pra aula ontem pensando no livro/filme, e me toquei que pelo menos eu tava tentando explicar o porquê da morte do Bruno sob um ponto de vista completamente errado, que era uma possível mudança no pai dele. Você ficou insistindo que eu disse que o cara era tão "máquina" que não era pai, e que nem a morte do Bruno mudaria isso - aparentemente "abstraindo" a parte em que eu dizia que a morte, sim, poderia operar algumas mudanças, e que um simples "susto" talvez não pudesse. Vamos deixar isso de lado. Mas, antes, queria só relembrar umas coisas que o pai dele fala no filme mesmo:

Father: I'm a solider. Soldiers fight a war. 
Mother: That's not war! 
Father: It's a vital part of it!

Father: They're not people at all, Bruno.

Em vez de pensar no que ele poderia fazer depois do Bruno, vamos pensar em antes dele. Levando em conta que o Ralf (não me lembro se o filme chega a mostrar o nome dele) é um pai, ele tem responsabilidades para com os filhos. Check. E ele é um nazista, oficial da SS (as "Tropas de Proteção", um grupo de elite que contava com homens racialmente selecionados e disciplinados, responsável pelos campos de concentração e extermínio nos países ocupados), ou seja: sabia muito bem onde estava se enfiando, e considerando tudo, acreditava bem no que estava fazendo - levando os filhos para um campo de extermínio. E foi ele quem arranjou a contratação de um professor, que diz o seguinte:

Bruno: There is such thing as a nice Jew, though, isn't there? 
Herr Liszt: I think, Bruno, if you ever found a nice Jew, you would be the best explorer in the world.

Você ainda falou sobre a parte em que a mãe deles tem a conversa com o pai, e no Study Guide "oficial" do filme que eu usei pra dar minhas aulas sobre o livro tem duas coisas interessantes. Seguem:

"But Bruno’s father, Ralf, has been promoted and the family will be moving from Berlin to the countryside. Bruno’s grandfather clearly disapproves. Bruno is told to think of it as “an adventure.” Dad says serving as a soldier is “about duty not choices.”

"Hints of the Holocaust waft into the seemingly protective confines of the family home. Bruno’s grandmother refuses to visit the house in the country. The strain of living within range of a concentration camp wears upon Bruno’s mother. She is willing to risk charges of disloyalty. Bruno’s mother decides, “This is no place for children.” Father begrudgingly agrees."

A primeira é autoexplicativa, e a segunda tem essa palavrinha mágica que, segundo o thefreedictionary.com, quer dizer "To give or expend with reluctance". Claro, ele concorda, mas insisto: não porque ele achava que os filhos deveriam ser levados para longe por risco de vida, mas pra que fossem criados longe do campo, onde não pudessem ver o que acontecia lá e, por consequência, fossem relativamente indiferentes, até porque estamos falando de um menino de 9 anos que tem uma percepção de mundo bastante limitada e de uma menina de 12 anos que é convertida pela ideologia em que o próprio pai acredita, e não é pouco - afinal de contas, ele se tornou comandante de um campo de extermínio. Será que ele não pensava que matava não judeus, mas pais como ele, mães como sua esposa, filhos e filhas como os seus próprios? "They're not people at all, Bruno". I don't think so. Ele fez sua escolha, e tomou sua parte (ativa) na Guerra e no extermínio dos judeus.

E daí que me veio a necessidade da morte do Bruno, independente do que viria depois: o preço que se paga. Você ontem falou do motto do filme, então vamos pensar nisso. Ok, então o Bruno entra no campo, mas é salvo antes mesmo de entrar na câmara de gás, a família toda toma um susto que faz com que o pai abra os olhos e "pule fora" de tudo. Eu continuo achando isso um tanto quanto impossível, mas vamos por esse viés. Então, ok. Aconteceu isso, ufa. Ele se salvou, "só" o Shmuel morre. Então, o que você vê? Qual o motto? Que, apesar de você acreditar na propaganda nazista, apesar de ser conscientemente responsável pelo extermínio de milhares de pessoas, apesar de você ter aceitado a oferta de levar sua família para um lugar como Auschwitz (que o Bruno chama de "Out-With" no livro, por errar a pronúncia, assim como ele chama o Füher de "Fury"), tem a chance de sair "limpo" da história, com sua família, enquanto as atrocidades no campo de extermínio continuam? A cena seguinte seria o quê? A família indo embora, com cara de alívio, e promessa de um novo começo, onde as coisas dariam certo? E os que ficaram para trás, os judeus? E o próprio Shmuel, você se esqueceu dele? Fatalmente, ele acabaria por morrer, como o pai dele, cuja morte foi autorizada por ninguém menos que o pai do Bruno. Um pai mata o outro, supõe-se que indiretamente mata o filho do outro, mas assim ainda sai "de boa" depois do susto, com sua família, seu filho, são e salvo? Seria esse o motto? Claro, você poderia dizer que ele seria atormentado pelo que fez, um tribunal do pós-Guerra poderia julgá-lo e condená-lo, mas não vamos entrar nessas possibilidades.

O negócio é que, por trás da história de amizade, de uma história vista através dos olhos de um menino de 9 anos, estamos falando do Holocausto, e a História sempre vem cobrar seu preço - um, por exemplo, por que a Alemanha paga até hoje. E o livro passa, sim, uma mensagem, por trás do que se vê na tela. O preço tem que ser pago, e é justamente aí que entra a morte do Bruno - ela é o preço. Independente do que viria depois, se vai mudar ou não. Continuo acreditando que só a morte dele poderia operar a mudança, o susto não seria o bastante, e não seria JUSTO. Até porque, uma coisa que o filme não mostra, os meninos vão pra Auschwitz de trem, e o Bruno vê o trem com os judeus nos outros trilhos, abarrotados de pessoas, os dois saindo juntos. Percebe a simbologia disso? Trens diferentes, confortos diferentes, etnias diferentes, o mesmo destino, o mesmo fim. Desde o começo, e o filme trata de mostrar isso, você tem que os meninos, por mais que sejam diferentes, são muito mais parecidos do que se imagina. A mesma idade, se dão bem, a mesma língua e até mesmo eles concordam que são relativamente parecidos - daí o plano do pijama pro Bruno. O pijama, aliás, é o momento mais alto dessa similaridade, porque é aí que eles se tornam comuns, se confundem, tanto que acabam tendo o mesmo fim.

Vale a pena ver isso de "fim": o pai junta-se ao Partido Nazista, acreditando nos ideais do partido, recebendo Hitler em sua casa, contra a vontade dos pais - lembra-se das cenas das festas na casa deles em Berlim? Ele se torna um oficial da SS pela lealdade e competência, vai para Auschwitz ser comandante, autorizar e gerenciar a morte de algumas milhares de pessoas que, para ele, "are not people at all". E leva sua família, sem se dar conta dos riscos de perigo aos filhos, tão compenetrado no trabalho que não percebe as sumidas do filho, e até aí nem a mãe, ou pelo menos ela é ignorante do paradeiro real do Bruno. Percebe como, de certa forma, he had it coming all along? Outra expressão que me vem em inglês é aquela the punishment should fit the crime, que é válida no Direito também, e qual punição para o pai seria mais apropriada para quem tomou parte na II Guerra do jeito que ele tomou? Se estivéssemos falando de um soldado, um sargento, alguém sob ordens que faz a guarda do campo, que mata um soldado inimigo na batalha, é uma coisa. Mas ele, de mãos limpas, foi o responsável pela morte de algumas milhares de pessoas, de crianças a idosos.

Você entende que, no fim das contas, a única justiça que o livro/filme poderia promover seria tirar do pai o filho, em compensação pelos outros tantos de filhos que ele tirou dos pais, ou dos pais que ele tirou dos filhos? O Bruno era inocente? Sim, mas até aí o Shmuel também era, e o pai dele [Shmuel] também, e ainda assim, morrem porque pessoas como o pai do Bruno acreditavam que eles não eram "people at all", e que ser soldado é "about duty, not choices", e ele fez a sua, que era tomar parte numa "vital part" da Guerra. Se o Bruno não morre, como fica essa justiça? Não fica! A mensagem que acaba sendo passada é a de que, não importa a atrocidade que você cometa, dá pra se arrepender e deixar tudo para trás, sem pagar um preço por isso - se o filme mostrasse alguns dos julgamentos de Nuremberg, e o pai sendo condenado, apesar do arrependimento, atéééééé daria pra engolir, mas não mostra. A gente tem que pensar que o filme vai até ali e acaba. A mensagem dele depende disso, não de suposições posteriores, mesmo que ele mudasse, fosse um pai dedicado, contra o Nazismo e blá blá blá. Seus crimes já foram cometidos, pessoas que morreram não iriam voltar. Achar que tudo ia se resolver e "dar certo" é ver a coisa com mais flores do que ela tem, uma solução meio filme mamão com açúcar, e apesar das crianças, O Menino do Pijama Listrado tá longe disso. Qualquer coisa com o Holocausto está longe disso, aliás.

Você achou justo o Col. Landa do Bastardos Inglórios conseguir se safar daquele jeito? Imagino que não, mas ele ia, e o símbolo que o Brad Pitt faz nele é um tipo de compensação, porque não dava mesmo pra ele sair tão incólume assim. O duro pro pai do Bruno é que o "símbolo" que ele recebeu foi mais duro. Assim como uma cicatriz, a morte do filho nunca ia se apagar. Um susto, com o tempo, poderia ser esquecido.

Enfim, escrevi uma bíblia e, confesso, ontem quase voltei da aula pra escrever isso, porque não saía da minha cabeça, depois que eu acordei da aula de Direito de Empresa. Cheguei atrasado e dormi o que "assisti" de aula. rs

Bom dia pra você!

"Hello Peter, what's happening?"

Quem vê o título (ridículo) de Como Enlouquecer Seu Chefe (1999) e uma foto de Jennifer Aniston na lombada do DVD não pode se deixar enganar: comece a chamar o filme pelo nome original, Office Space, e meta na cabeça que ela é uma coadjuvante que aparece muito pouco. Mas estava em Friends e daí já viu: o rostinho bonito dela vai pra lombada e pra uma foto atrás. Personagens como Samir e Michael Bolton (uma das melhores piadas do filme) são muito mais relevantes do que ela, que faz o papel da garçonete Joanna.

De qualquer maneira, é um filme que qualquer pessoa que trabalhou ou trabalha num escritório precisa ver. Ele é aquele sonho que qualquer um que fica na jaula corporativa por pelo menos 6 horas (se for escraviário) ou 8 horas (se for efetivado, CLT e o caralho a quatro) - ou mais do que isso, se você morar em SP e quiser ganhar um troco a mais e o apreço do seu chefe.

É sobre largar tudo. Relaxar e levar o trabalho numa boa. Dar o cano no chefe porque ficou dormindo. Chegar atrasado, de chinelo (ok, isso eu pulo), comer salgadinho, sair mais cedo. Ir fazer um almoço de 2 horas, xavecar aquela garçonete gatinha, ou sair pra tomar um café no meio da manhã sem ligar pro que vão dizer. Ser promovido por simplesmente constatar os fatos como eles o são e ninguém parece ver, sendo que isso vai te deixar trabalhar ainda menos. E, se der, ainda dar o golpe na empresa e se safar, porque alguém resolveu começar um incêndio - fique longe dos Miltons do seu escritório, ou pelo menos seja legal com aquele cara estranho que meio que fala pra dentro e consigo mesmo.

Mas o filme em si é sensacional, o senso de humor dele. Há cenas "clássicas", copiadas por Deus e o mundo, como quando Stu (de Family Guy) arrebenta um disco de vinil, ou mesmo quando Bill Lumbergh (Yeeaaaah, só esse cara praticamente vale o filme) aparece em outros seriados. Já viu alguém mostrar sua "Oh face"? Se não, aqui está: http://www.youtube.com/watch?v=QzIN3EgBIHg. A música "Damn It Feels Good to be a Gangsta", do Geto Boys, gruda na cabeça, e você fica com vontade de arrebentar aquele seu computador que dá pau, ou máquina de xerox que emperra, ou cafeteira que só quebra - tudo isso no trabalho.

Office Space é do caralho, de verdade - e custa coisa de R$ 12,90 nas Lojas Americanas. Além de um legado de namoro que não deu certo, é dos meus filmes favoritos, e que passou a fazer muito, mas muuuuito mais sentido pra mim a partir de dezembro de 2010, quando eu entrei "pra equipe", e passei a ver que meu lado Peter Gibbons é bem mais fraco do que eu imaginava. Foi só botar o terno e gravata que ele foi domado.

Yeeeahh...

"Estás listo para irte?"

Que ninguém duvide que Javier Bardem é um puta, mas um PUTA ator bom. Mar Adentro (2004) e Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007) são duas ótimas provas, com um Vicky Christina Barcelona (2008) com tantas distrações que ele acaba não chamando tanta atenção.

Mas com esse belíssimo e tocante Biutiful (2010), o novo filme de Alejandro González Iñárritu, ele esfrega o chão com os competidores ao Oscar e a qualquer outro prêmio esse ano, Colin Firth e seu gaguejar que me desculpem - até porque foi a primeira indicação de Melhor Ator a alguém que não fala inglês num filme (sem esquecer nossa Fernanda Montenegro em 1998, por Central do Brasil). Assistir à desconstrução de um homem pode ser trágico, deixar mal - especialmente quem tem problemas com família e pai -, mas ele consegue fazer com que tudo que se sente seja... comoção. Não dó, nem pena. Mas comoção, por ver um pai tão dedicado, metido em tanta coisa errada, por um objetivo bom. Um homem que, mesmo com todos os motivos para chutar o balde e, por exemplo, nunca mais olhar pra cara da ex-mulher, o faz, e com toda a dignidade e doçura possíveis. Um homem que consegue se colocar de lado, e ajudar a tudo e a todos, numa condição que lhe dá todo o direito de ser egoísta.

O que se vê é que ele tem uma chance que poucas pessoas têm: de se preparar para partir, sem ter todo o dinheiro que o Jack Nicholson teve. Sem aventuras mirabolantes, que visam tão somente ao bel prazer de quem as faz; muito pelo contrário. Até o último minuto, ele tenta deixar as coisas certas, pra quem puder, ainda que, como qualquer ser humano, faça das suas cagadas, e termine atormentado por uma delas, bem grande e séria, exteriorizada num choro sofrido, honesto, que contagia. Difícil não chorar com ele, ou mesmo por ele, quando observa sua filha com uma cara de quem está, finalmente, em paz, e passa a uma alegria quase infantil, numa das cenas entre pai e filho mais simples e, ao mesmo tempo, significativas.

Quer dizer, esse é o tipo de filme que pode parecer um baita dramalhão, mas não é. Ele simplesmente toca, e ainda assim consegue ter cenas que fazem rir, e outras que dão certo medo - eu nunca lidei bem com pessoas no teto, ou espíritos. E faz você sair do cinema com vontade de abraçar seu pai, mesmo que ele não seja o Bardem, ou pelo menos dar aquela olhadinha pra cima e pensar "Que bom que escrevi aquela carta", porque fica parecendo que, no fim das contas, ela seria tão importante quanto o anel de casada que sua mãe deixa para seus filhos.