"I think positive emotion trumps negative emotion every time."

Quando eu vejo Robert Pattison, o Edward, me vem à cabeça que ele é um cara que fica fazendo cara de dor de barriga o filme toda, por causa, bem, das caras de dor de barriga que ele fica fazendo como o vampiro mais pop do mundo hoje em dia. E me pego pensando se ele vai ser sempre assim, se o cara vai ser pra sempre o Edward ou se vai alavancar e mostrar ao mundo pra que veio, como outro ator que já entrou de vez na minha listinha de favoritos: Leonardo DiCaprio. Sim, ele mesmo.

A primeira coisa que tive o "prazer" de ver com esse rostinho bonito em cena foi, infelizmente, Titanic (1997), e por duas vezes no cinema e nunca mais. Claro, na época, eu achei o máximo, gostei do filme, e até cheguei a discutir a entrada dele ou não na corrida para o Oscar e achei que a Kate Winslet não tinha graça (isso só viria a mudar anos depois, e hoje sou até meio apaixonadinho por ela). Veio O Homem da Máscara de Ferro (1998) e A Praia (2000), e de repente eu não conseguia mais olhar pra cara dele, que tinha virado um rostinho bonito que não fazia nada que prestava e ainda tinha que aturar a cara dele em bancas de jornais, capas de fichário e atrás da porta do guarda-roupa das irmãs dos amigos. Peguei birrinha, pronto. E fiquei muito tempo sem assistir a nada que fosse dele.

Comecei a trabalhar numa escola depois da Disney e tinha uma bendita aula de vídeo em cima de Prenda-me Se For Capaz (2002), que eu sempre ignorei, apesar de todas as críticas, recomendações e, bem, Tom Hanks. Daí veio Os Infiltrados (2006), novos elogios e prêmios, e um dia resolvi assistir a Diamante de Sangue (2006). Lembro muito bem de, no fim do filme, virar pra Bell e dizer "E não é que o Leonardo DiCaprio tá virando ator?", surpreso pela atuação dele, pelo bom filme que ele tinha feito. Mal sabia eu que ia vê-lo em cena com Jack Nicholson dali mais um tempo e soltar um "É, o cara virou ator mesmo".

E sabe quando, daí, parece que tudo começa a acontecer? Apesar de dar a aula, nunca tinha visto Prenda-me. Peguei empretado na escola e vi um dos filmes mais bacanas sobre malandros até hoje, tanto que tenho o DVD. Resolvi ir lá atrás, e vi Diário de um Adolescente (1995), seu primeiro grande filme, e fiquei de cara com ele, tão novo, tão bom. Ainda outro dia, veio Rede de Mentiras (2008), mais um bom filme que os americanos fazem para exorcisar os próprios demônios da Guerra ao Terror, cujo ápice esteve no Oscar esse ano. Com a farra da Blockbuster, o ótimo Foi Apenas Um Sonho (2008) que, por sinal, tem algumas das melhores cenas cortadas, só disponíveis dos extras, e alguns meses atrás o também ótimo e scorcesiano Ilha do Medo (2009), numa sessão de cinema com ameaças graves às meninas lésbicas de 14 anos do meu lado.

Não é que ele sempre foi bom? Fez uns filmes toscos, é verdade, mas quem não fez na carreira? É que nem mulher... todo cara que desfila por aí com mulher bonita já deu sua barangada, fato. E ele poderia ter virado um Ben Affleck, que se deu bem com Gênio Indomável (1997), mas que se mostrava um canastrão, continuou canastrão e, fazer o quê?, vai ser canastrão pra sempre, com o rostinho bonito também. Nem todos os atores que tem isso do rostinho conseguem, infelizemente, fazer o que um Brad Pitt ou um - agora admito, com prazer - DiCaprio conseguiram. E mais do que atuarem bem, eles sabem escolher muito bem os papéis, os filmes, o que fazer e o que não fazer. E no caso do Leo, como diz uma amiga, sem perder a carinha de menino (ainda acho estranho vê-lo fumando, por exemplo).

Daí domingo eu fui ver A Origem (2010), o tal #3 do IMDb. Sensacional, fantástico, ótimo! Mesmo! E, além de uma direção bem conduzida, de bom elenco, efeitos especiais fantásticos (a briga sem gravidade no corredor do hotel faria qualquer Neo vs. Agente Smith ficar com invejinha), tem um Leonardo DiCaprio fazendo um Cobb inspiradíssimo, no limite, contribuindo em cada cena pro final "Ahn?" que deixa a gente na dúvida. Quando o cara consegue isso, é porque ele é bom, e não porque tem um rostinho bonito e de bom moço. Ele me faz ir atrás do filme, e já pensei na listinha que preciso dar cabo agora: As Filhas de Marvin (1996), O Aviador (2004) e Romeo + Julieta (1996), enquanto não sai mais nada novo do Kevin Spacey ou da Maryl Streep.

"This city is afraid of me. I've seen its true face."

Dizer que "ah, o livro é bem melhor, né?" parece ser uma máxima de cinema, seja quem for, falando de qualquer que seja o filme. Exemplos não faltam, daria pra fazer uma lista de 250 só com as adaptações mais fracassadas ou toscas mesmo. Tudo bem, tem umas que chegam a dar raiva mesmo, especialmente quando você gosta do livro, mas a gente não pára pra pensar que trabalho ingrato é esse, pior que ficar descascando pinhão com dedo e sem faca. 

Mas de vez em quando temos gratas surpresas, ou até mais gratas, quando o filme consegue ser melhor do que o próprio livro. Até tenho um exemplo pessoal para isso, que seria O Jardineiro Fiel (2005), do nosso Fernando Meirelles e com os ótimos Ralph Fiennes e Rachel Weisz, baseado na obra de John le Carré. O livro é bom, claro, super interessante, ritmo bom, apesar do tamanho, como os bons livros de espionagem e afins do le Carré, mas o filme... é fantástico. A históra é muito fiel, muito mesmo, mas eu diria que há duas coisas que fazem toda a diferença. A montagem do filme, começando pelo carro, que volta e meia reaparece, cada vez mais completo, e a cena do teatro de bonecos discutindo doenças na África. A outra seria Filhos da Esperança (2006), com Clive Owen. Sempre fui fã de ficção, e o filme é super interessante, mas uma colega de trabalho disse que o livro chega a ser chatíssimo. Ah, sim, e acabei de pensar em Ele Não Está Tão a Fim de Você (2009), porque o livro me irritou horrores, mas do filme eu gostei, até porque as coisas ali são colocadas por um personagem, e você não sente aquele tom de "eu tenho a razão" do mané do livro.

E ao invés de fazer um contraponto dizendo que só tem porcaria, e as boas adaptações são a exceção, hoje eu vi como é complicado fazer isso, mais uma vez. Nos filmes, convenhamos que os diretores têm lá uma certa limitação de 2 horas para get the job done, até porque mesmo gente que gosta de cinema torce o nariz quando vê coisas do tipo 162 minutos - e não completamente sem razão, às vezes. Esse é o tempo marcado em Watchmen (2009), que eu terminei de ler hoje e vi hoje mesmo. Só que aqui não se trata de um livro, mas sim de uma graphic novel, ou seja, um livro em quadrinhos. Não, não é só um gibi que nem da Turma da Mônica, mas praticamente um livro mesmo, um romance, e incrível, bom pra caralho mesmo. E denso, complexo. E o filme é muito bom também, mas chega a ser injusta a comparação... convenhamos, são 12 edições para a revista, mais de 350 páginas, e como passar tudo pra tela? Fica meio óbvio que o filme não vai ser tão bom quanto, mas isso não faz dele um filme ruim, muito pelo contrário. Ele tem um grande mérito de ter tentado e ter conseguido tão bem, dentro do possível. É uma coisa comum, aliás, nesse tipo de revista, a exemplo de Sin City (2005), que é bom demais, e é fidelíssimo aos quadrinhos, mesmo em termos de imagem.

Claro, existem certas técnicas e clichês de cinema que atrapalham, como certas cenas... o Dr. Manhattan nunca entrega de bandeja a verdade sobre o pai de Laurie, como ele faz no filme, e algumas cenas são meio mastigadas pro povo, e poderiam ser bem mais fiéis à revista, mas eu só sei disso porque li. Quem nunca leu, nem vai saber, e vai gostar do filme, a menos que seja um típico espectador do água com açúcar de sempre que tanto me irrita se não for em doses homeopáticas. O Caçador de Pipas (2007) caiu tanto nesses clichês que ficou... bem, uma bomba. Horrível, ruim mesmo, e o livro tão bom. Tiraram tudo que tinha de tão forte no livro pra fazer ele ficar digerível e com um happy ending que estraga tudo, tudo mesmo. Já 1984 (1984 - ahá!) é bastante fiel, e talvez peque por isso mesmo, e por ter um narrador tão forte.

Essa parte do narrador, por sinal, é um dos grandes desafios. Como transpor uma voz que te conta tanto num livro, tão natural lá, para uma linguagem visual como a do cinema? Todo mundo que critica deveria se perguntar "Eu consigo assistir a um filme com voz narrativa?". A resposta é fácil: não. Uma boa tentativa disso foi, por exemplo, Blade Runner (1982), cujas versões finais sempre tiraram a voz do Harrison Ford narrando a história. Foco narrativo é importante por demais, e nesse ponto é que Watchmen apela, porque são diversos focos (como o jornaleiro, por exemplo, ou todas as reflexões do Dr. Manhattan, ou mesmo o pequeno jornal que recebe e ignora o diário de Rorschach, que o filme deixa como um "Oh, será?" idiota no final).

E, pra não ficar nas revistas em quadrinhos, nada mais justo que falar de Ensaio Sobre a Cegueira (2008), também do Meirelles, baseado no fantástico e fodástico livro do falecido José Saramago, portuga. O filme é bom, bem realizado (os móveis que parecem à medida que se tromba neles foi um recurso interessantíssimo, mas aposto que pouca gente percebeu), mas o livro... ah, o livro. Eu esperava um filme com cheiro, angustiante, medonho, não sei. Me ficou que, mesmo com todo o esforço, as boas atuações, o Saramago chorando ao final da exibição pra ele, mesmo com tudo isso, o filme ficou devendo, e não tinha como não ser assim. De novo, isso faz do filme um filme ruim? Não, não faz. Vale a pena assistir? Muito, sempre, até porque é um prazer ver na tela o que você só conseguia imaginar.

O caminho contrário, que não é o meu favorito, de ver o filme e depois ler, vale a pena também, como foi Eu Sou a Lenda (2007), que também é bem mais legal do que o conto que dá nome ao livro, especialmente pela Manhattan criada na telona. Mas daí porque ficou mais filme de ação com ficção, a montagem dos flashbacks bem realizada e oportuna (100% linearidade de cu é rola) e tem o carisma do Will Smith, além de que o conto é meio antigo, e certas coisas tinham que ser "corrigidas", e o fizeram na mosca. Seria muito bom se as pessoas fossem ler os livros depois de ver os filmes, e quem sabe eventualmente começariam a ler pra ver o filme, mas nem isso.

Alguns autores, por outro lado, sempre fazem livros mastigadinhos para serem transformados em filmes, como é o caso de Dan "Da Vinci" Brown, ou mesmo dos livros do Nicholas Sparks (The Notebook, A Walk to Remember e tantos outros livros que vêm - ou deveriam - acompanhados de caixas de lenços), mas daí não tem nem graça, é mais fácil ler o roteiro, porque mal tem o que comparar, e desde 1995 eu gosto desses tais estudos comparativos, por causa do Kevin Costner e do seu Robin Hood (1991), nas minhas aulas de português. O primeiro VHS que aluguei na vida, com meus pais, e foi tão legal, apesar das discrepâncias gritantes do livro com o filme, muito mais bonitinho e enlatado, embalado por Bryan Adams. 

Hoje, eu faço os tais estudos por minha conta, e fico até chato falando pra quem não leu de todas as diferenças, mas ainda vou criar coragem e fazer isso com O Senhor dos Anéis, a saga, e depois matar alguém de tédio, porque haja saco pra tanta página e tantas horas e todos os comentários que isso vai me render. Alguém me aguarde, com muito café.

Ah, Penelope Cruz...



Depois a gente fica apaixonado por você (mesmo não sendo você quem realmente canta, mas todo o "resto" de Volver me fazer pensar assim, e todos os outros filmes, e Vicky Cristina Barcelona), e você vai lá e se casa com o Javier Bardem. Assim não dá.

"Alguém tem que saber fazer esse mingau."

Nesses últimos tempos, andei conversando muito sobre cinema nacional, e semana passada isso tomou proporções “internacionais”, porque deu pra ver que esse preconceito que as pessoas têm contra o santo de casa que não faz milagre não se restringe ao Brasil, mas também ao Chile, à Colômbia e talvez até à França. Afinal de contas, a grama do vizinho é sempre mais verde, especialmente quando essa grama tem um verde californiano. O argumento é quase sempre o mesmo: o filme mostra uma realidade tão “de casa” que não tem graça, é filme violento, é filme ruim. Mas principalmente essa coisa da realidade, de ser uma coisa cotidiana e, por isso mesmo, sem graça – afinal de contas, pra que ver a “nossa realidade” sofrida, não é mesmo? Muita hora nessa calma, camarada.

Daí que eu começo a minha defesa ao cinema brasileiro, ao cinema portenho (ou argentino, se for mais fácil), e começo a buscar mais “produtos” tanto brasileiros quanto latino-americanos, e tenho tido gratíssimas surpresas, como diria certo agregado machadiano. E a última dela foi o brasileiro Tempos de Paz, de 2009. Um filme com dois atores consagrados (os ótimos Tony Ramos, ex-Juca, eternamente peludo, e Dan Stulbach, exímio tenista da Helena Ranaldi e corinthiano, graças a Deus) que, muita gente não sabe, já tinham levado a peça ao teatro pra depois fazer o filme, sendo que isso é incrivelmente raro. Não de se ter uma peça transformada em filme, mas tê-lo com os mesmos atores, e acho que não é segredo pra ninguém que muitas vezes atores geniais no palco são péssimos com as câmeras e vice-versa.

Bom, daí que é um filme de época, 18 de abril de 1945. Isso é bom sinal, vai agradar a quem curtiu Terra Nostra e porcarias globais similares. E daí que é justamente um filme que se passa em algumas horas, num ambiente só, praticamente, e é um filme até parado, porque o cerne dele está num diálogo. Simples assim, e até absurdo, porque alguém vai dizer “Ah, vá... era só liberar o cara, pra que tudo isso?”. Pois é, pra quê? Pra mostrar justamente o papel da arte. É um filme sobre a brutalidade em duas culturas diferentes, que só podem se aproximar porque duas pessoas vítimas e produtos dessa brutalidade, dessa solidão, se aproximam, se abrem e, especialmente Segismundo (Ramos), sem nem mesmo entender, se rende ao poder da arte de transformar, de emocionar (“E o pior é que eu não entendi nada que o sujeito disse!”). No caso aqui, essa arte é claramente o teatro, tão relegado por tanta gente, tido como “chato” ou coisa de gente metida, mas aqui o meio pelo qual as duas culturas, os dois passados de violência e brutalidade são aproximados a ponto de se criar afetividade, de maravilhar, de fazer cumprir seu papel. Teatro que, desde o gregos, é a representação da vida mais simples e de mais fácil acesso, de mais fácil entendimento, e ainda assim uma das formas de arte mais difíceis para os atores, que têm que mostrar que aquilo ali não é simplesmente uma abstração da realidade, mas uma mímesis desta, sem os recursos cinematográficos, repetições e retoques. O making of do filme mostra que Daniel Filho, o diretor, tem essa preocupação.

Nesse ponto, Tony Ramos dá uma aula de atuação, da bruta truculência à expressão de uma criança que descobre algo novo, algo que ele não sabia que estava lá, apesar do que diz no começo do filme sobre teatro e a Europa (afinal, era uma peça de um autor espanhol que se passa na Polônia, e isso o toca muito mais que uma mulher brasileira que emite promissórias pelo rádio). Mérito também a Dan Stulbach, que consegue colocar tamanha emoção num personagem, e fazer teatro dentro de um filme (ou, no caso, teatro dentro do teatro). Sua menção ao grande Carlos Drummond de Andrade (no começo do filme ele recita “Mãos Dadas”, de O Sentimento do Mundo – se você não conhece ainda, discretamente abra o Google, dê um sorriso amarelo ou faça cara de paisagem, leia e finja que já sabia depois) não é de graça, especialmente com seu questionamento interno sobre a possibilidade de haver teatro (arte) depois dos horrores que o mundo viu com a II Guerra, e daí sua vontade de ser agricultor, de construir algo concreto, que dá frutos visíveis e é alheio à nossa barbárie uns aos outros. Mas isso é algo um tanto quanto impossível, como se vê com o desenrolar do filme, e sua genial representação em plena sala de imigração. Além disso, o modo como Clausewitz (Stulbach) se mostra decepcionado com a língua portuguesa deveria ser um ótimo exemplo de toda a carga que uma língua traz consigo mesma, apesar de que tem gente que diz que é tudo “só” língua, e que falar uma ou outra dá no mesmo. Ledo engano da alma e da cabeça.

Agora, se mesmo assim ainda não deu pra pegar o espírito da coisa, eu vou citar um trecho do filme. Sim, é um pouco spoiler, mas deveria ser desses que faz a gente querer ver o filme. A ver:

“Eu não sei para que serve teatro no mundo depois desta guerra. Só sei que eu tenho que continuar a fazer o que eu sei fazer. Um dia alguém vai saber para que serve, não? Se serve. Para mim, me basta fazer. Fazer teatro.”

E é isso que a arte faz. Ela simplesmente faz, sem ter obrigação ou finalidade nenhuma, porque isso é papel do observador, que vai entender com a sua própria linguagem, do jeito que lhe convir e, espera-se, se emocionar com aquilo.

"We're superheroes! You love us!"

Kick Ass é, antes de qualquer coisa, é um filme bastante violento, ao contrário do que alguma idéia que os posters (muito bons, por sinal, especialmente os dos EUA), uma olhada inicial e Chloe Moretz (a irmã de 12 do Tom de (500) Dias Com Ela)  podem dar. É sangue, bastante, e até mesmo um pouco perturbador para algumas pessoas, se ligar menininhas a balas na cabeça revira o estômago de alguém. É um filme de ação, com uma trilha sonora bacana

E, ainda assim, é legal pra caralho! Especialmente pra qualquer geek que gosta de quadrinhos, até porque o filme vem de quadrinhos (por Mark Millar e John Romita Jr.), e é absurdamente recheado de referências, além das mais óbvias, como o Homem-Aranha, X-Men e o Quarteto Fantástico. Dois exemplos:

Kick-Ass: "With no power comes no responsibility." - uma "piada" em cima da fala-lema do Homem-Aranha.

Red Mist: "Wait 'til they get a load of me!" - o Coringa de Jack Nicholson fala isso no Batman, de 1989.

As cenas de ação são bem feitas (uma delas lembra absurdamente Matrix, e Neo correndo e disparando), o elenco bem escolhido, os uniformes bacanas, a sequência em quadrinhos pra explicar a história de Big Daddy dentro do filme... é como que ver um personagem de uma história em quadrinhos lendo um gibi, ou personagens vendo um filme que tem relevância dentro de um filme. Eu fico louco com essas coisas, fica legal demais! Até mesmo o sangue nos tiroteios é claramente feito em computador, mas eu posso estar louco, mas tem um certo efeito de desenho no sangue, não aquele cenográfico patife que não convence ninguém. E alguns diálogos são engraçados demais, como o em que o cara é torturado e a discussão toda é em cima do Batman ou não.

Claro que é provável que mais garotos se interessem pelo filme do que meninas, até pela coisa de ação + super-heróis (é... "super-heróis"), mas é um filme já feito pra uma geração mais pop do que testosterona.  O YouTube deitando e rolando, até pra dar o começo real da história. A trilha sonora é boa pacas, moderna (Mika) e ao mesmo tempo não (Ennio Morricone, afinal de contas, quem mais daria o tom de western pra um filme tão bem?). Christopher Mintz-Plasse puxa Superbad (um... clássico?) e McLovin' pela memória, e não dá pra não gostar desse moleque. Não vale a pena perder por preconceito, a menos que ver gente sendo morta (pelo olhos de um ursinho de pelúcia, que ironia fantástica!).

E é um alento pra qualquer geek. A discussão que os garotos têm no começo (dentro de uma loja de quadrinhos muito maneira, com um Homem-Aranha em tamanho real, diga-se de passagem) sobre o que aconteceria na "vida real", ou mesmo quando Dave/Kick Ass pensa em Peter Parker/Homem-Aranha e meninas... bom, fica até curioso. Ele consegue a menina, Kate (que solta algo incrível como "If I had the chance, I'd fuck his brains out" só pra gente ficar bobo e com inveja da cena seguinte), e daí você se pergunta "Se ele consegue, será que eu na vida real consigo?", apesar do plano de amigo gay ser um pouco demais. Acho que a gente consegue, no fim das contas. Geeks e nerds têm lá seu charme, e isso vale pra ambos os sexos.

Não deu pra não pensar numa frase também no começo... duas, na verdade.

Dave Lizewski: Jesus, guys, doesn't it bug you? Like thousand of people wanna be Paris Hilton and nobody wants to be Spider-Man. 

Kick Ass: The three assholes, laying into one guy while everybody else watches? And you wanna know what's wrong with me?

É curioso, mas é assim mesmo, não? Principalmente a molecada de hoje em dia, só se espelha e admira quem não presta. Paris Hilton é role model, mas os super-heróis não. Mesmo o coitado do Capitão América teve que morrer, porque... bem, o mundo não tinha mais lugar pra ele, e não só o da Marvel. Precisávamos de um cara mais flexível e que tem ideais menos 40's, mais modernos. E isso de a gente só ficar olhando... sad but true. Me lembrou a vez que eu vi um menino sendo assaltado na Santa Cecília, e fiquei lá, olhando, tentando criar coragem pra fazer algo, enquanto todo mundo fazia de conta que nem via, passava reto, bem como o cara da janela que acaba morto - curioso, porque justamente ele que não faz nada acaba assim, sendo que na vida real geralmente é o contrário. 

Será que falta um pouco de Kick Ass em mim? Ou eu fiz foi bem, e assim caminha a humanidade, com super-heróis com poderes nos quadrinhos e os sem poderes também nos quadrinhos, e a gente só consegue fantasiar sobre algo assim?

"Really? Well, then I guess I'm in big trouble."

A idéia era um top 5 de filmes mais ou menos "aun" que não são, na realidade, tão "aun" assim... Mas alguns acabam sendo. Anyway, as meninas entendem o termo, e os rapazes deveriam entender.

E dia 12 de junho é aquele que vem depois do dia 11 e antes do dia 13, mas vale a lembrança.

Não adianta, acho que esse acabou por ser meu all-time favourite para filmes cujo tema principal é amor e afins. E não é só por causa da Zoey Deschanel. (L)

Já foi um certo filme da minha vida, e dá pra gostar até da atuação mais ou menos séria do Ashton Kutcher, que chama mais a atenção do que a Amanda Peet, sem graça.

Mesmo vendo o filme em português, não deu pra não ter aquele quê de "que graça de filme, gente!", por mais gay que isso soe. Especialmente numa cena sem diálogo algum.

O mais recente da lista, mas é irresistível, com toda a estranheza dele. Além de tudo, o Patrick Fugit (o ótimo William Miller do fantástico Quase Famosos) dá um sentimento bom de familiaridade, ao mesmo tempo que não).

Realmente, o filme mais gostoso e legal de se ver com Adam Sandler, no melhor papel dele, como Robbie pra mim. Sem contar que a Drew Barrymore está beeeeeeeeem melhor aqui do que no Como Se Fosse a Primeira Vez, que tenta repetir esse filme, sem as músicas e a trilha sonora dupla, além de faltar o Billy Idol.

"And this trip is a hard swallow of my pride"

Alvin: I'd give each one of 'em a stick and, one for each one of 'em, then I'd say, 'You break that.' Course they could real easy. Then I'd say, 'Tie them sticks in a bundle and try to break that.' Course they couldn't. Then I'd say, "That bundle... that's family."

* * *
Alvin Straight: You don't think about getting old when you're young... you shouldn't.
Cyclist #1: Must be something good about gettin' old?
Alvin Straight: Well I can't imagine anything good about being blind and lame at the same time but, still at my age I've seen about all that life has to dish out. I know to separate the wheat from the chaff, and let the small stuff fall away.
Cyclist #2: So, uh, what's the worst part about being old, Alvin?
Alvin Straight: Well, the worst part of being old is rememberin' when you was young.

* * * 
Alvin Straight: Anger, vanity, you mix that together with liquor, you've got two brothers that haven't spoken in ten years. Ah, whatever it was that made me and Lyle so mad... don't matter anymore. I want to make peace, I want to sit with him, look up at the stars... like we used to do, so long ago.

* * *
[last lines]
Lyle Straight, Alvin's Brother: Did you ride that thing all the way out here to see me?
Alvin Straight: I did, Lyle.

* * *

De vez em quando é sempre bom a gente ser lembrado que o caminho muitas vezes é mais importante do que o destino, seja o que for que nos aguarda lá na frente. E melhor ainda quando temos uma história tão simples e tão comovente pra mostrar isso, com um velhinho tão fofo e simpático, sempre disposto a compartilhar um pouco da bagagem que eles têm com estranhos.

Daí você se lembra que o mesmo David Lynch que faz maluquices como Cidade dos Sonhos consegue fazer uma pérola como esse História Real (The Straight Story).

"Fuck it, Dude, let's go bowling."

Depois de tanto, taaaaaaaaaaanto tempo e tanto enrolar, O Grande Lebowsky entrou na minha vida. Quer dizer, "Dude" Lebowsky entrou, com todo o seu jeito... dude de ser e ver a vida. E o mais incrível é como esse foi um filme que veio carregadíssimo de expectativas e, felizmente, atingiu e se não as superou. E Jeff Bridges é foda, mesmo sem ter visto Crazy Heart ainda.

Não é só por ter morado nos EUA e ter visto, claramente, em diversas cenas uma grande e fina ironia pelo apelido "Dude, que é tantas vezes repetido no filme e na vida real, como todo mundo se chama por lá, do mais pobre ao mais rico. Pode ser qualquer um, e pra mim é daí que vem a grande sacada do nome do sujeito, especialmente pelo estilo de vida que ele leva. Parece que, curiosamente, o filme tem um certo status de cult nos EUA muito maior do que aqui, a ponto de pessoas se reunirem em convenções à Star Wars pra falar sobre o filme e, bem, o estilo "dudiano" de viver. Pra que mesmo, se o Dude é uma bela representação do white American trash, colocado numa roupagem meio Raymond Chandler? Assim, eu quero dizer que lá tem gente demaaaaaaaais da conta que é simplesmente um Dude mas nem sabe, e aqui também, e ele é um ponto de exagero cômico, mas estranhamente perto da realidade pra algumas pessoas, nem que seja aquela que elas repudiam ("The bums will always lose!") ainda que admirem quando é o Jeff Bridges.

E o John Goodman, como o Walter? Fantástico, com o trauma que os americanos (espcialmente os veteranos, os armamentistas até falar chega) têm com o Vietnã mesmo em coisas que não tem nada a ver! Steve Buscemi sempre ótimo, ainda mais quando tão perdido nas conversas e com um fim tão "do nada" que dá o toque de surrealidade para os diálogos que, na real, não têm nada com nada. ("What the fuck are you talking about?") Julianne Moore que o diga, mas ainda não sei se fiquei meio que com repulsa pelo papel dela ou meio que apaixonado. São tantas caricaturas no filme (os alemães niilistas paródias do Kraftwerk e o inglês deles, além do sempre ótimo John Turturro como Jesus, são espetaculares!) que fica difícil dizer qual delas é a melhor. Nesse sentido, até me lembrei um pouco de Napoleon Dynamite, pelo humor que não é tão... óbvio, mas pela coisa caricatural, humor um pouco mais sutil, especialmente mirado nos americanos. Seria mais ou menos como ficar fazendo piada com a classe média brasileira, como o saudoso Caco Antibes falando de pobre ele sendo um, mas sem as risadas de fundo, e sem a cara e o momento pastelões.

Claro, O Grande Lebowsky é (mais) uma obra-prima dos irmãos Coen, e de longe melhor que o coitado do Napoleon (apesar do incrível "Gosh, frigging idiot!"), mas é filme pra ser visto mais de uma vez. Pra se ter em casa, e assistir, quem sabe, tendo uma ocasional viagem de ácido. Quem sabe assim o estilo de vida "dudista" bate, nem que seja por alguns minutos, ou horas.

"It's the answer to your nightmares."

Foram preciso três tentativas pra conseguir ver Alma Perdida (Cold Souls), um filme que aparentemente passou na Mostra de Cinema do ano passado, e eu não fui ver, como de praxe. Eu apaguei em duas delas, e hoje terminei - e não, o filme não é nada chato, eu que tava morto de sono nas duas vezes mesmo e fui ver na cama.

Paul Giamatti é um baita ator, (in)felizmente meio esquecido por grande filmes (a não ser pelo péssimo Mandando Bala, mas quem não faria um filme ruim pra estar perto da Monica Bellucci?), e a idéia do filme é bastante interessante, me fazendo pensar de cara que era uma coisa mais séria, meio... Charlie Kaufman. Virou meio que ligar batido eu falar de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, pelo tanto que eu gosto do filme, mas é meio impossível não ver um quê de proximidade ali, a começar pela idéia de extrair aquilo que está dentro de você e te traz dor. Aqui, sua própria alma; lá, suas lembranas, sua memória. Mas tem também uma coisa meio cômica na situação como um todo, o tráfico de almas, os aluguéis e as próprias falas.

Imagina alguém chegar pra você e perguntar "O que diabos a minha alma está fazendo na Rússia?", na maior calma, ou mesmo dizer "Eu estou desalmado, mas serão só por duas semanas". Acho que consegue ser mais inacreditável do que o próprio processo que o filme mostra, a extração da alma. Ou até do que ir apagando memórias, uma por uma, e rever uma casa na praia sendo despedaçada, pouco a pouco. Só que o que Brilho Eterno tem de interessante e triste, Alma Perdida tem de interessante e cômico, talvez - e olha aí uma grande ironia - porque a gente fique mais emocionado ao ver um amor se acabar do que ao ver a pessoa se despedaçar por dentro, perder a sua essência. Se é amor, é bonito, seja de quem for (especialmente o dos outros, aliás); se é do interno dos outros, problema deles.

Agora, é curioso como esses temas são tão fascinantes, não? E como deve ter gente que saiu do cinema (ou da cama, como eu) pensando em como seria bom se alguma coisa assim existisse, tanto de um filme quanto do outro. Se a gente conseguisse lidar com traumas apagando-os e levando a vida como se não tivessem existido, ou tirando a alma que nos pesa, pra depois pegar de volta, ou nem pegar. Soluções deus ex machina, que mostram como a gente não sabe lidar com nossos problemas mais complexos, e ainda assim tão interessantes. Me fica uma mini-sensação de que a gente tinha mais é que acabar um filme desses e começar a pensar em como podemos realmente lidar com essas coisas, mas é irresistível ficar pensando "Nossa, imagina se eu pudesse fazer isso?" e fantasiar quem a gente ia apagar, ou que alma ia querer no lugar da nossa, mais leve, mais fácil.

Eu me incluo, pelo menos no lugar do Jim Carrey.

Mega Piranha Trailer (Official)

Se alguém consegue pensar em coisa pior do que isso, me diga. Eu ainda tô pra ver... nem aquela cena de ação que eu postei outro dia aqui deve ser tão ruim, tão mal feito. É humanamente impossível!