"What's wrong with this picture?"

Sabe quando a gente fala sobre tiozão querendo ser moleque de novo, malhando feito um louco e andando com outro tiozão com correntes de prata pra fora da camisa, ou mulher com uns 50 e tantos anos vestindo-se como se ainda tivesse 20 e, pior, indo pra balada com as filhas?

Ver Os Mercenários (2010), o "grande" projeto de Sylvester Stallone (escrito, dirigido e estrelado por ele) ao lado de uma penca de fortões e Jet Li, alguns com mais de 40 ou até 50 anos, é mais ou menos assim - só que consegue ser pior. Acho que qualquer moleque, pelo menos que hoje está na casa de 25-35 anos, sonhou em ver o elenco do filme junto, dando sopapos uns nos outros, dando tiros em tudo que se mexe e explodindo até carrinho de pipoca. O bom de Jet Li (ainda que ele tenha 48 anos, pasme) e Jason Statham é que eles dão um sangue novo ao filme, e Mickey Rourke tem o bom senso de ficar de fora da pancadaria toda, mas o elenco é essencialmente quem todos nós, garotos, gostaríamos de ver num filme, faltando só Jean-Claude Van Damme (hoje com 51 anos) e uma participação muito mais expressiva do ex-governador Arnold Schwarzenegger, ao melhor estilo Comando Para Matar (1985) ou até True Lies (1994), apesar de que a coisa de uma equipe de mercenários cai melhor ao bom e velho Dutch, do fantástico O Predador (1987). Dolph Lundgren é quase uma piada pessoal para mim, mas eu confesso que gosto dele, em toda sua "tosquitude".

Mas ver esses tios todos, bombados, andando de motos, brincando de quem-é-melhor-em-jogar-a-faca, reunindo-se sempre num estúdio de tatuagem com motos, andando em carros que fazem o maior barulhão... putz, é péssimo. Aparece uma "gostosona" lá uma vez, mas fora isso, só um bando de machos, brincando de ser machos. E Stallone com uma baita cara de... tiozão com botox e maquiagem, que faz a sobrancelha, tirando ainda mais toda sua complexidade artística. Fica até difícil de acreditar que ele escreveu Rocky, um Lutador (1976), e que foi indicado ao Oscar por isso, além de por Melhor Ator. Fica parecendo um daqueles caras que se recusa a aceitar a idade, ou pelo menos aceitar com mais dignidade, como Robert Redford o fez. São dois tipos completamente diferentes, I know, mas mesmo assim, o próprio Schwarzenegger é bem mais versátil, nem que seja fazendo comédias toscas que dependem muito da sua falta de jeito para serem legais.

Pior de tudo: as cenas de ação são ruins! O enredo, claro, não faz muita diferença, e as tentativas de algum diálogo mais profundo são patéticas (no melhor estilo de "comover pela dor", porque é dar dó mesmo, de tão ruins). A papagaiada do General Garza, a super interpretação de Giselle Itié, o ex-agente da CIA do mal, até dá pra entender (quer dizer, alguém tinha que explicar exatamente por que a CIA ia querer um dos seus mortos, porque fica parecendo que é porque a droga é deles). Mas mesmo o gran finale parece que se passa num campo de paintball - e dos ruins -, o sangue é mal feito, sujeito perde a cabeça numa facada e logo em seguida aparece no chão com cabeça e tudo, sem sangue, uma arma .12 que faz paredes explodirem... é demais. Até mesmo o carinho paternal/fraternal/pedófilo de Barney Ross (Sly) pela bela, indefesa e com um fator de cura melhor que do Wolverine mocinha Sandra (Itié) é ridículo - só não foi pior por não ter beijo no final, depois da pérola de estar sempre por perto que eu prefiro nem lembrar.

Sério, eu gosto de filmes de ação, mas esse foi demais. Gosto de coisas absurdas, mas bem feitas, e que sabem seu lugar, sem tentativas de profundidade numa história que começa na Bósnia e termina com uma mulher que se joga de uma ponte e coisas sobre salvar a alma. Cabeças podem e devem rolar, paredes serem arrebentadas, um monte de soldados-mosca morrem, tudo vai pelos ares, mas com dignidade, e sem tiozões de botox e com sobrancelhas feitas. Sem a sensação de "tem algo errado aqui", que a arte imitou a vida no pior aspecto possível, ou pelo menos em um dos mais ridículos.

Só falta agora a seqüência sair mesmo (e a tendência de Hollywood é que isso aconteça mesmo), e acrescentarem Steven Seagal ao grande elenco. Vai ser uma bomba, de ruim e de loja de suplementos.

"I didn't know that, tell me more."

Acredito que muita gente, como eu, não entendeu o hype que se criou em torno de A Rede Social (2010), o filme que leva às levas o livro de Ben Mezrich sobre a criação do Facebook. Afinal de contas, foram 3 Oscar e mais 5 indicações em branco, sem contar os Globos de Ouro e dois prêmios da BAFTA (um equivalente inglês ao americaníssimo Oscar). Que o roteiro é incrivelmente bem adaptado, só lendo o livro pra saber, mas prestando atenção a certos detalhes.

O grande lance do filme é, além do roteiro e as atuações pra lá de convincentes (quem lê o livro apenas fica achando que Mark Zuckerberg é um cara meio retardado e mudo, mas Jesse Eisenberg mostra que não), a edição dele. É apenas mais um daqueles prêmios técnicos pra que ninguém presta real atenção enquanto assiste à entrega dos prêmios, aproveita pra ir fazer xixi ou pegar chocolate, mas é fundamental. Por quê? Simples: você não percebe certas coisas.

O livro é recheado de informações sobre pessoas, especialmente. Tem, claro, toda a parte de programação, e eu fui passando batido, e mesmo no filme fiz cara de "Ah, claro, é isso" quando eles falam sobre aspectos técnicos de programação. Só que conta muita coisa sobre Sean Parker (o cada vez melhor Justin Timberlake - nas telas), por exemplo, ou sobre como as coisas desenrolaram com todos os personagens... daí, você pega um cara que mandou bem no roteiro, e uma edição MUITO bem feita, e... de repente, todas as informações, TODAS mesmo, estão no filme, e em nenhum momento você pára e fica com aquela sensação de "De onde saiu essa informação?", tão incômoda em alguns filmes. Palmas para Aaron Sorkin (roteiro) e Kirk Baxter e Angus Wall (edição), que nunca vi mais gordos, mas que mandaram muito bem!

Pena, na real, que nem tudo é assim, e não dá pra pedir pra eles fazerem isso com a nossa vida. É triste, não?, quando as coisas que devem ser naturais entre pessoas não são assim porque toda hora é preciso parar, e explicar as coisas, mostrar informações, mastigar, explicar. E daí, bye bye "fluência", leveza. As coisas deixam de fluir naturalmente, e parece que somos lembrados do problema em si, em vez de prestar mais atenção ao contexto maior, ao filme em si. É mais ou menos como contar uma piada, tendo que parar pra explicar tudo. Perde a graça, quando chega no final, já era.

O curioso foi que percebi recentemente, qual era o grande mérito do filme: essa leveza com a quantidade de explicações e informações nele. E me lembrei na hora de quando a Isabelle reclamava do meu contar histórias, repleto de pausas por detalhes e divagações. Elas são legais, mas têm que ser curtas, porque no fim das contas, se perde o interesse, e fica cansativo ficar parando toda hora. E foi vendo a história de Mark e Eduardo Saverin que eu me toquei disso, só que com a experiência que eu não via estar vivendo, e sem meu bilhão de dólares.

"I want to be perfect."

Tem filmes que são feitos para certos atores e atrizes, eles são perfeitos para os papéis e para os enredos. É o caso de Penelope Cruz em Volver (2006),  ou mesmo George Clooney em Amor Sem Escalas (2009), entre outros tantos.

Ah, mas ver Natalie Portman tendo o filme dela, o belíssimo Cisne Negro (2010), se masturbando com tanta intensidade... eu passei mal no cinema. Ela que é tão delicada, exatamente como pede o papel de Nina e a white swan que ela graciosamente dança, fazer aquilo com aquela ferocidade, dando os primeiros passos ao black swan que ela majestosamente incorpora, na cena da metamorfose que é sensacional... Não se atinge a perfeição sendo sempre a Mrs. Clean, boazinha. Abaixo com essa coisa de persona (complicada e) perfeitinha que todo mundo espera, ou pelo menos que a gente tem que manter porque "é certo", e acaba sendo conveniente pra todo mundo!

E depois tem gente que não entende por que eu sou apaixonado por ela.

“Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce.”

Não vou voltar à minha ladainha de sempre sobre cinema brasileiro. Gosto e ponto. E já tinha falado de um em especial, que eu queria demais ver, As Melhores Coisas do Mundo (2010). Tanto enrolei, com o DVD em mãos, que fui assistir justamente na cidade onde cresci, onde tive meus 15 anos e... bem, tive uma adolescência aparentemente menos complicada e definitivamente menos conturbada do que a de (Her)Mano, o protagonista do filme, interpretado pelo mais do que convincente Francisco Miguez. Ele não fica com cara de idiota e repetindo mecanicamente as frases, thumbs up!

Ao contrário do que parece, não é um filme só pra moleque, pra ver no Cinema em Casa ou algo do tipo: é um filmaço, divertidíssimo e nostálgico - até a sensação de frio na barriga de chegar em uma menina numa festinha da escola, sóbrio. Meu, CHEGAR em uma menina, nem lembro quando foi a última vez que fiz isso! E é um filme que provoca, especialmente adolescentes, porque é incrivelmente próximo da realidade, o que até deprime um pouco e me faz ter second thoughts em ter filhos, mas isso tem um certo endereço em Higienópolis que faz por mim três vezes por semana. Mas a parte da proximidade da realidade é no mínimo curiosa, pra quem é da idade, ao assistir, porque... bem, porque as coisas são exatamente como o filme mostra, só com menos Manos de vez em quando, e com cada vez mais Fiuks (não, eu não estou xingando o filho do Fábio Jr., até porque ele é perfeito para o papel do Pedro, irmão meio emo do Mano).

Mérito da competente diretora Laís Bodanzky e de um elenco muito bem escolhido, só com moleques mesmo, gente que está onde o filme mostra que está, mas na vida real, e que acabou participando na construção do clima, das personagens. Isso faz toda a diferença, quando trabalhando com adolescentes: deixar, sei lá, a naturalidade rolar solta, e eles, tipo, dão conta do recado, né. É até engraçado ver o making of, mas realmente vale a pena, a molecada conquista um pouco mais.

Agora, o que é realmente interessante é ver o filme já um pouco mais velho. A frase inicial de Mano, o título do post, é certeira, claro, mas vendo o filme é impossível não soltar um "Ah, que ridículo isso" pra alguns dos problemas da molecada, ou mesmo xingar o moleque que fala mal de um professor (o ótimo Caio Blat).  A gente sempre acha que nossos problemas são enormes, e que ser feliz é difícil pacas, mas depois olha pra trás e pensa aquele "Afe, eu reclamava DISSO?", mas é difícil mensurar o real tamanho dos abacaxis e pepinos quando eles estão numa mão e a faca na outra. Como ele mesmo diz, quando mais velho, ser feliz só é mais complicado. Foi exatamente como eu me senti outro dia no colégio, com uma pitada de irritação, ouvindo uma aluna de 14 aos prantos por causa do namoradinho (ou namoradão, pelo tamanho da criança) dela. E aposto que vou me sentir assim de novo lá pelos 50 e tantos, quando meu filho me chamar de "mano" e falar que alguma coisa "miou", por SMS ou pelo Facebook.

Com o filme é mais leve, porque dá pra pausar, e o que me bateu foi saudade, dos meus problemas aos 17, dos meus amigos que tanto me fazem falta, apesar de alguns de nós estarmos até na mesma cidade... cacete, me deu saudade do colégio, mesmo porque o filme tem uma cena rodada no Santa Marcelina, onde estudei entre 1992 e 1996! Em suma, o filme é gostoso demais, e muito bem feito, sem ser babaca - como alguns adolescentes/personagens o são, que se confundem, pra mim - e tem uma das trilhas sonoras mais interessantes que já vi num filme nacional, ou em qualquer filme. 

E, curiosamente, eu falei pra tal aluna que tava chorando ver o filme, mesmo sem eu ter visto. Na lata! Pra ela e pra mim, até porque, como diz Mário Quintana, "triste de quem não conserva nenhum vestígio de infância", e esse filme é ótimo para mexer com os vários que ainda se pode - e deve! - ter.

"Well, there it is."

Sabe quando você vai ver um superclássico, aquele filme de que todo mundo fala, dizem que é sensacional, que é bom, os críticos e até o Oscar concordam... e daí acaba, você entende o porquê de tanta aclamação, mas ao mesmo tempo fica com uma sensação de "... é isso?" na cabeça, mas em segredo, porque não pode dizer isso na frente de ninguém? Tipo admitir que não assiste ao BBB e ser um alien numa sala?


Pois é, Amadeus (1984), o grande vencedor de 8 prêmios da Academia em 1985... pra mim foi você, mais ou menos. Acho que preciso ver de novo, e baixar minhas expectativas, tentar ver coisas onde eu não vi. Mais ou menos como a gente faz com tudo na vida, especialmente pessoas. É que nem sair com aquela pessoa que você ficou na balada e nem teve como conversar direito, ou na hora foi legal, seus amigos empurraram os dois, e daí quando foi ser o papo, aqueeeeeeeeeela decepção. Mas ela é bonita, ele é gatinho, tem sorriso, é legal, mas fica nisso. Você pensa "Pelo menos foi divertido, né?" e sorri pra pessoa, diz pra combinarem de sair de novo, mas vai ser naquela quarta-feira chuvosa e sem o Van Damme na Sessão da Tarde ou o Corinthians em campo pelo Paulistão. Uma hora ou outra você se lembra, pensa que tem que rolar de novo pra ver se dá liga, mas dá uma preguiça, aparece outra pessoa mais interessante, e assim caminha a humanidade.

O pior é só anos mais tarde conseguir perceber a genialidade da obra e da pessoa, geralmente esta com outro(a), e a gente fica com cara de bolinho. Pelo menos o filme não casa com outra pessoa, e a gente só faz papel de bobo dizendo "É, agora só que eu entendi...", arrependido de ter dito que não achou lá grandes coisas, ou que Led Zeppelin nem é tão bom assim. Certeza que o Mozart tem algo a mais que sua risada escandalosa e mulher com os peitos quase pulando pra fora o filme todo, e eu vou entender por que F. Murray Abraham é tão brilhante no papel de Antonio Salieri, um dos loucos mais cativantes que já vi.

Mas, até lá, acho que alguns ainda vão passar na frente e a fila vai andar. Quem sabe numa quinta-feira sem meu filme favorito da Sessão da Tarde, Os Aventureiros do Bairro Proibido?

Quiz

Simplesmente sensacional! De cara, dá pra identificar uns 9, mas é pra ficar dias... e horas de expediente. Oh, boy.

"We all got it coming, kid."

Assistir a um western é uma sensação curiosa, especialmente para quem nasceu dos anos 80 pra frente. Nós não crescemos vendo John Wayne, Henry Fonda, Charles Bronson (ok, esqueçamos Desejo de Matar por alguns minutos), James Coburn e outros tanto cowboys que levaram nossos pais e avós ao cinema. Nós não tivemos o prazer de irmos ver os chamados western spaghetti, como os tantos filme de Sergio Leone. Hoje são feitos alguns filmes do gênero, como Os Indomáveis ou Appaloosa mas... falta alguma coisa. E não é puro saudosismo, mesmo porque eu sou de 1984. Hoje em dia, diante de tantos recursos, diantes de um Avatar da vida, é até curioso ver um filme de "mocinhos e bandidos", um bang bang, como minha tanto gosta de dizer, seja ele novo ou de 1968, como o clássico Era Uma Vez no Oeste.

Mas, por outro lado, é um privilégio poder ver uma pérola como Os Imperdoáveis (Unforgiven), o clássico de 1992, de ninguém menos que Clint Eastwood, hoje talvez mais conhecido por filmes como Menina de Ouro (2004) ou Gran Torino (2008), ou seus dois filmes de guerra feitos praticamente ao mesmo tempo, o magnífico Cartas de Iwo Jima e o irmão pobrezinho, A Conquista da Honra, ambos de 2006. Clint Eastwood é uma lenda viva do cinema, ícone máximo do cinema "macho", e sua biografia é uma coisa impressionante de se ler. E ao mesmo tempo é um diretor de primeira, que consegue, ao mesmo tempo, ter filmes duros e sensíveis, com personagens, por vezes interpretados por ele mesmo, que têm os dois lados (duro com os filhos, mas sensível com os vizinhos coreanos), como o Walt Kowalski de Gran Torino.

E Walt tem um predecessor chamado Bill Munny, o cowboy de Os Imperdoáveis. É um filme impressionante, com uma fotografia de cair o queixo (ver a imagem de dois cowboys andando a cavalo contra o pôr-do-sol ainda é impressionante) e tem... bom, tem Clint Eastwood. E Morgan Freeman, como Ned Logan, o grilo falante de Munny. E Gene Hackman, como o violento xerife "Little" Bill Daggett. E tem um roteiro sensacional, que mostra como um fora-da-lei ruim pode ser um homem bom, mas que, aos poucos, volta a ser... bem, ele mesmo. As epígrafes do começo e do fim do filme são importantes, marcando o ponto em que Munny estava e a que volta posteriormente, mas o enredo dá ao espectador o prazer de ver Munny/Eastwood tornar-se Munny/Eastwood. Do mesmo modo como ele deixa sua vida de lado por uma paixão (epígrafe I), ele volta a ser por outra, dessa vez pela paixão da amizade com Ned Logan, cruelmente assassinado pelo xerife (atuação magnífica de Hackman, a ponto de não ser possível sentir raiva dele). Mas não é um caminho sem volta (epígrafe II), do mesmo jeito que o lado bom dele não é. Cultura herdada dos western spaghetti (Eastwood ganhou muito da sua fama com esse gênero), em que não é fácil ver mocinhos e bandidos, cowboys e índios, mas homens bons levados ao seu limite e homens maus que ganham sua simpatia por fazerem o que é "certo". Como ele diz, todo mundo está sujeito a bons e maus acontecimentos, explicando sua visão dura e certa de mundo ao jovem parceiro, Scholfield Kid.

De um homem dócil, até, se chega à entrada final em New Whiskey (uma das melhores cenas que já vi, com a chuva e a garrafa de whiskey jogada no chão depois de 11 anos de sobriedade, do ponto de vista do cavalo, fantástico!) de um homem disposto a se vingar, mas das pessoas certas, pelos motivos certos, que volta a ter as habilidades uma vez enferrujadas, mas nunca perdidas (o tiroteio final no bar de Skinny é uma ilustração de absolutamente tudo que é dito no filme, especialmente as narrativas para Beauchamp, o escritor). Munny sai do bar exatamente do modo que ele tanto tentava deixar pra trás, profetizando "You better bury Ned right!... Better not cut up, nor otherwise harm no whores... or I'll come back and kill every one of you sons of bitches", mas não como o homem que passa a maior parte do tempo bêbado ou mata mulheres e crianças, que já matou tudo "that walks or crawled at one time or another". Como ele anuncia diante de todos, "I'm here to kill you, Little Bill, for what you did to Ned", depois de finalmente admitir seu passado, mostrando como é possível que o protetor pode, às vezes, fazer as vezes do matador a sangue frio (um recado para os EUA, talvez?).

Não dá pra não ver e admirar Clint Eastwood em cena, mas eu tenho que admitir: nem como o pistoleiro sem nome nos filmes de Sergio Leone (como Três Homens em Conflito, de 1966) eu tinha ficado tão impressionado com ele, com uma personagem, com um enredo que até tem ares de desculpas por uma carreira tão voltada para violência (além de tudo, ele foi o policial "Dirty" Harry Callahan, do melhor estilo "atire primeiro, pergunte depois"), com um homem que busca sua própria redenção diante de uma vida desgarrada sem, no entanto, conseguir efetivamente deixar esse seu lado para trás.

É um bang bang, mas dos filmes mais bonitos que já vi, com uma cena tão marcante quanto a entrada dele na cidade para o matadouro do bar, quando ele nem sabe direito quem mata, só acha que deu sorte na ordem. Duro, violento, mas ao mesmo tempo sensível. Esse é o nosso Clint Eastwood, em comparação àquele que nossos pais iam ver no cinema e por quem vibravam, e por isso talvez nosso prazer, pelo menos pensando nele, é infinitamente maior do que o dos nossos pais.

Retrospectiva do Cinema Brasileiro 2010

Isso é mais do que qualquer coisa um serviço de utilidade pública, especialmente pro pessoal que tem a péssima mania de achar que a grama do vizinho hollywoodiano, europeu ou inglês, até mesmo argentino, é mais verde: o Cine SESC, uma das salas mais gostosas e interessantes na cidade de São Paulo está, até o final do mês, um projeto chamado... bom, Retrospectiva do Cinema Brasileiro. Todo ano eles fazem isso, assim como no primeiro semestre rola aquela eleição para os melhores filmes do ano anterior e acontece uma mini mostra, de coisa de um mês. E o melhor: tudo a módicos R$ 4,00 - numa cidade onde um cinema que não tem nada de mais com o Bristol cobra algo em torno de R$ 20.

Fiquei louco quando vi, porque eu ia/vou poder sanar algumas deficiências do ano e da vida. Reflexões de um Liquidificador, filme que me lembrou bastante o ótimo Estômago (2008), foi o primeiro a sair do caminho, no sábado, às 2 da tarde, com o cinema vazio, vazio - e um foco de lascar ("Acorda, projetista!"). E mesmo quem torce o nariz pode ir ver "na marra", depois culpa algum amigo mais nerd e pensa que foram só os tais R$ 4,00, que os flanelinhas perto do Mackenzie acham justo por dois dias  parando o carro pra eles "cuidarem". Háh! Mas o legal foi que eles tinham um livretinho mega bem feito, com sinopses e levantamentos interessantes de todos os filmes, o que é ainda melhor quando se está na companhia de alguém que efetivamente estuda e entende de cinema, especialmente o brasileiro, e pode te dar várias dicas do que assistir. Muito, mas MUITO melhor do que qualquer livretinho de Cinemark e mesmo do Espaço Unibanco. E de graça. E tem gente que nem fica sabendo. Ou se fica torce o nariz porque parece minha mãe que só de ouvir falar em cinema brasileiro pensa que a coisa vai ser ruim. Ela achou, por exemplo, que Cidade de Deus  (2002) não prestava porque, entre outras coisas irrelevantes e vergonhosas, se falava palavrão demais no filme. Falou isso pra mim, que uso 'porra' como vírgula e 'caralho' é vocativo.

Daí que, além de querer ver Tropa de Elite 2 de novo, já tinha metido na cabeça que ia criar vergonha na cara e encarar também As Melhores Coisas do Mundo, pelo menos. Já foi pro saco, de novo, e também por causa do Corinthians no domingo - e eu sabia que não ia valer a pena. Mas daí tem um Do Começo ao Fim na quarta-feira, dia 08, às 22h, ou um Antes que o Mundo Acabe dia 13, segunda-feira, às 20h. Que tal Insolação, dia 18, sábado, às 16h? Os horários e a disponibilidade foi bastante afetada por motivos ótimos, mas ainda assim tem espaço pra coisa boa. Claro que as bombas marcam presença, afinal de contas temos Xuxa e o Mistério da Feiurinha, mas é raridade, ainda mais se a gente considerar algumas coisas do naipe de Os Vampiros que se Mordam e toda a leva de fora que vem, de baciada, e ficam semanas intermináveis em cartaz, especialmente cruel pra quem é professor de adolescentes e pré-monstros. Quem reclamar muito de Segurança Nacional deveria pensar por 5 segundos e fazer uma lista de filmes de ação notoriamente ruins que são "aclamados" pelo povão.

O negócio é que eu fico meio inconformado comigo mesmo e com muita gente não vai ao cinema ver filme nacional (eu mesmo vi quase todos em DVD ou no computador), mais ainda com quem nem mesmo vê os tupiniquins, seja como for. Mas essa barbada do Cine SESC não dá pra perder, pelo menos um filme dá pra ir ver - tem algumas coisas interessantes mesmo entre o Natal e o Ano Novo, com uma São Paulo já esvaziando. E um filme nacional e BOM!

Fica aí a dica. Quem precisar ou quiser de companhia... eu sou facinho, nunca escondi isso. Até pago a pipoca.

"I want something I want - something pretty."

[Karl has given Sarah a lift home after the Christmas party. They are standing on her doorstep]

Karl: Well, I-I'd better go.
Sarah: Okay.
Karl: Goodnight.
Sarah: Goodnight.

[he gives her a quick peck on the cheek, then they begin to kiss passionately]

Karl: Actually, I don't *have* to go.
Sarah: Right. Good.
Karl: I mean...
Sarah: No-no that's good. Just, um, would you excuse me for one second? Just...
Karl: Sure.

[she moves round the corner, out of sight of Karl, dances a little jig for joy, then returns]

Sarah: Um, okay, that's done. Um, why don't you come upstairs in about ten seconds.

* * *

ai ai
=D

"Comigo foi sempre assim, parceiro.", pt. II

Tá bom, essa semana eu tive uma conversa que me fez pensar um pouco mais sobre o Tropa de Elite 2, especialmente no que diz respeito a uma coisas que eu mesmo escrevi no outro post:

"Mas é também um filme muito mais pretenso, e simplifica a coisa como um todo, apesar de que talvez seja essa a melhor forma de mostrar o tamanho do problema que é a corrupção, e não só na Polícia."

Não foi sobre a Polícia que fiquei pensando, mas sobre ele ser um filme pretenso, e sobre o sistema, e sobre o Coronel Nascimento (acho que eu gostava mais de dizer "Capitão"). Talvez esteja aí, pra mim, a grande falha do filme.

A narração do Wagner Moura é muito boa, fato. Tanto que ele, no primeiro filme, mudou toda a edição e fez com que o seu Capitão Nascimento fosse o personagem principal (pois é, não era pra ser ele, e quem assiste à edição pirata percebe isso um pouco melhor, e daí é só ler o livro pra ver que não existe nenhuma menção a um certo Capitão Nascimento - hã hã? - lá), e não só pelo falatório. Mas parece que agora ele fala até demais, tem que explicar tudo, tin tin por tin tin, e... fica demais. Mas isso não fica estranho, se alguém fizer um pouco de análise de discurso no filme, passando do nível superficial.

É bem claro que o "sistema" é o grande vilão, que temos policiais corruptos, que se relacionam a políticos corruptos, exitem as tais milícias e daí temos toda a merda do filme e da vida real. Vemos tudo que acontece nas comunidades carentes, e vemos o alto escalão da política. Mas... e a classe média? No primeiro filme isso é muito fácil de ver, com a universidade, o tráfico de drogas e tal, é dedo apontado na cara do quem vê, mas e agora? Fica uma coisa meio abstrata até, não atinge diretemente àqueles que são, por vezes, os maiores culpados. Comunidade não elege, sozinha, político corrupto. Não é porque a gente não faz um gato em casa pra ter TVA que isso significa que não temos nossa culpa no cartório, até porque em teoria as classes mais favorecidas são justamente as cabeças pensantes do país, aquelas que deveriam tomar alguma atitude (Winston Smith, esqueça o papo de prole). Só que no filme isso fica implícito, "jogado" na tal cena de Brasília, com uma frase no mínimo suspeita: "E quem você acha que paga a conta, parceiro?" - ou algo assim.

Nunca duvidei da capacidade de pessoas serem idiotas, ainda mais quando se trata de uma coletividade. E vai ter, sim, gente que vai sair do cinema xingando político, pobre e milícia, sem fazer mea culpa, porque o filme não mostra isso, e nossa classe média é daquelas que gosta de informação pronta. Não vai ter cena de faculdade com gente bonita pra mostrar como a droga chega lá, e essa é a grana que financia o tráfico. Só tem cena de como comunidades estão no rolo, enquanto o resto da cidade dorme tranquila, como se desse pra separar tão bem o joio do trigo. Só que, indo um pouco mais a fundo, alguém tem que perceber que nós temos uma parcela de culpa bem grande.

É o caso de uma eleição de um Maluf da vida por quem tem empreteira e diz que ele é bom pra construção civil, pensando no próprio bolso. É o caso de quem não precisa de serviços públicos e vota no Tiririca por achar que a piada é boa. É quem compra DVD pirata na rua sem saber a origem dessa merda, não conseguindo se tocar que isso pode, sim, ser uma fonte de renda de traficante ou das tais milícias do filme. É quem não percebe que o desvio de dinheiro tira a verba de quem realmente precisa (sendo bem didático, vamos pensar: se há verba, e escolas são construídas e professores são mais bem pagos, será que vamos ter a mesma quantidade de crianças na rua, roubando?), e mantém um círculo vicioso que parece não ter fim no Brasil, e não só no Rio de Janeiro.

É foda, mas um filme tão bom quanto esse peca na hora de apontar o dedo, e não é fazendo uso da ótima narração do Nascimento o tempo todo que a coisa fica mais fácil. A situação é bem complicada, e mereceria alguns bons minutos a mais, com fala de menos, e mais imagem. O povo esquece o que ouve, mas não o que vê, e o filme não mostra a matemática que cabeças mais preguiçosas não conseguem fazer, e daí saem do cinema com raiva, xingando, mas indo tomar aqueles chopes depois e pagando pro policial que parar o carro na blitz da Lei Seca, porque isso não tem nada a ver, claro. O salto é da comunidade carente pra Brasília, não tem nada a ver com o resto do povo.